Marcelo Augusto da Silva me enviou outra entrevista com um grande jóquei do passado, na opinião quase unânime de quem o viu montar, o melhor de todos os tempos. Seu nome: Luiz Rigoni. Esta matéria, ainda tem algo de muito especial, pois saiu no último exemplar da revista "O Coruja", de 12/10/1988. Antes, porém, uma brincadeira. Coloco uma imagem com o retrato de grandes jóqueis do turfe paulista. Os dois primeiros que acertarem o nome de cada um deles, da esquerda para direita e de cima para baixo, recebe um mês de assinatura gratuita dos meus prognósticos (sei que o prêmio não é grande coisa, mas enfim, é uma brincadeira).
Muitos turfistas, principalmente os novos, não sabem ainda o que significa o nome LUIZ RIGONI para o Turfe brasileiro. Além de ser um mito, este nome é um sinônimo de eficiência, coragem, dedicação e amor ao turfe.
Convidamos Luiz Rigoni, a contar aos nossos leitores um pouco da sua vida profissional, para ser publicado no último número de nossa revista. O “Homem do Violino” ou “O Fantasma da Gávea”, com era chamado no Rio de Janeiro, atendeu prontamente o nosso pedido.
Confortavelmente instalado numa poltrona, saboreando um delicioso cafezinho, Rigoni inicia seu relato:
Iniciei minha carreira no turfe em 1940, em Guabirotuva, Paraná, atuando como cavalariço. Aliás, não faz muito tempo, convidado pelo João Carlindo e Valter Siqueira, estive no Paraná a fim de assistir uma penca onde corria um cavalo de propriedade do João Carlindo, que por sinal venceu, e, de passagem, vi parte da arquibancada do hipódromo de Guabirotuva, que ainda se encontra no local.
Em 1942 tirei matricula de aprendiz e fiz minha estréia montando uma égua chamada Namorada, que era de propriedade de meu pai. Consegui chegar em segundo e, pouco depois com a mesma montaria, consegui minha primeira vitória.
Em 1943, menos de um ano depois, passei a jóquei. Neste mesmo ano, fui convidado por Pedro Gusso Filho a ir para o Rio de Janeiro. Pedro estava levando para a Gávea três animais; Que Lindo, Bonenota e outro animal cujo nome não me recordo no momento. Todos esses animais eram de propriedade de Hermínio Brunatto, que viria a ser sogro de Pedro. Na ocasião, recordo-me que tivemos que ficar aguardando alguns dias, em São Paulo, transporte especial para o embarque dos animais . Neste meio tempo, os animais ficaram alojados nas cocheiras de Silvio de Paula Mendes.
Em 1944, após um mês de minha chegada, fiz minha estréia no Rio de Janeiro montando a égua Juruaia. Era um sábado. A égua, portadora de péssimos trabalhos, chegou onde deveria chegar: último. Alguns meses depois, voltei a montar a égua numa prova corrida na pista de grama pesada. A bichinha correu uma barbaridade e, ninguém sabe como, venceu, pagando mais de mil cruzeiros por dez.
No domingo, numa prova em 1.200 metros, na grama, montei Que Lindo. Na mesma prova estreava um animal de nome Pica-Pau, de propriedade do Dr. Artur Lundgren. Que Lindo, muito ligeiro, tomou a ponta e na famosa seta dos 360 metros apareceu o grande favorito Pica-Pau, atropelando como um vento. Que Lindo, que ainda mantinha algumas reservas, “endureceu” e consegui levá-lo até o disco, com meio corpo de vantagem sobre Pica-Pau. É bom que se diga que, quando comecei na Gávea, as coisas não foram nada fáceis para mim. Morava numa cocheira e precisava escovar diariamente dois cavalos. Não me envergonho em contar estes detalhes. Sempre fui homem trabalhador. Naquela época havia muitos jóqueis de gabarito atuando no Hipódromo da Gávea. Somente em 1945 fui ganhar a minha primeira prova clássica, montando Valipor, numa prova disputada em 2.400 metros. Derrotamos Irará, de propriedade de José Buarque de Macedo, que mais tarde viria a ser meu patrão.
Fui convidado por José Buarque a trabalhar alguns potros de sua propriedade, que estavam aos cuidados do treinador Gabino Rodrigues, ainda no Rio. Entre a potrada encontrava-se a famosa Garbosa Bruleur, que montei em sua vitoriosa estréia, em 800 metros, e em varias outras oportunidades, também vitoriosas.
Garbosa Bruleur ficou invicta até ser derrotada por Helíaco. Nessa ocasião a égua não estava bem. Na semana da corrida eu disse ao “Don Gabino”, como era chamado o treinador. “A égua está morta”, gíria turfística usada entre os profissionais. “Don Gabino” respondeu: “No Rigoni. La yegua está muy buena”. Diante desta resposta, recorri ao proprietário e dei minha opinião. Afinal eu trabalhava a égua e conhecida muito bem o animal. Ninguém conhece melhor as condições do concorrente que o jóquei, que diariamente tem contato e sente a disposição do animal.
Todos sabem o que aconteceu. A égua correu e foi derrotada pelo Helíaco, perdendo também para Ilíada, a quem sempre havia derrotado. Ilíada era treinada por Juvenal Lourenço, o popular “Zezéco”, alegre e brincalhão, uma das muitas, entre tantas, boas e queridas pessoas com quem tive o prazer e a honra de conviver.
Depois da perda da invencibilidade de Garbosa Bruleur, foi realizada uma reunião, nas cocheiras, entre “Don Gabino”, José Buarque de Macedo e eu. Decidimos que a égua iria descansar alguns meses e seria preparada para correr o GP São Paulo. Antes porém, correria uma prova preparatória, no Rio, o que ela fez com sucesso.
Garbosa Bruleur foi a forra com Helíaco. Ele, que havia tirado a invencibilidade da égua, agora também perdia para o animal que ele havia derrotado.
Daí em diante minha vida profissional ganhou outro impulso. Comecei a liderar a estatística de jóqueis. Minha carreira estava no apogeu quando sofri um sério acidente com o cavalo Porfio. Na partida, o cavalo rodou e fraturou o joelho. Eu fui lançado ao solo, sofrendo pinçamento vertebral. Este fato, que me custou uma séria operação, me deixou afastado das pistas dois anos e três meses. Parecia uma eternidade.
A maioria pensava que este episódio havia selado definitivamente minha vida profissional. Não via a hora de voltar.
Num sábado, as portas do mundo se abriram outra vez para mim. Estava novamente no dorso de um cavalo. Montei Tendress e venci. No domingo, montei mais três vencedores.
Mas, diz o ditado: “Rei morto, Rei posto”. Na minha ausência, M.Silva, o popular “Bequinho”, havia se revelado um grande piloto e assumiu a liderança da estatística.
Voltei a montar, porém, o ambiente era outro, o clima não era mais o mesmo. Tudo havia mudado. Até os amigos mudaram. Durante todo este tempo que convivo no turfe, somente dois nomes ficaram marcados em minha mente. Claudemiro Pereira, treinador dos animais do deputado Euvaldo Lodi, e Mário D´Andréa. Estas duas pessoas foram muito amigas e incentivadoras.
Venci duas vezes do GP São Paulo, montando Garbosa Bruleur e Saravan. Poderia ter vencido também com Jocosa, cuja montaria recusei por causa do peso, 54 quilos. Seria muito sacrifício para mim chegar até aquela marca. Venci três vezes o GP Brasil. Em 1954, com El Aragonês; em 1970 com Viziane e em 1971 com Terminal.
No Rio de Janeiro venci, se não todas, quase todas as provas do calendário turfístico da Gávea. Em São Paulo, venci muitas provas do calendário turfístico de Cidade Jardim.
Em 1971, após ter vendido o GP Brasil com Terminal, fui convidado a montar o mesmo animal, na Argentina. Fiquei um mês no pais vizinho e, no hipódromo de Palermo, montei Terminal para vencer uma prova em 2.500 metros, na pista de areia.
Voltei ao Brasil e, alguns meses depois, devido a problemas de peso, abandonei a profissão.
Falando novamente sobre amigos, conheci muitos deles. Verdadeiros e interesseiros. Amigos existem, dos mais variados tipos.
Um treinador de famoso Haras disse-me certa ocasião: “Meu telefone tocava constantemente. Depois que deixei de cuidar de animais, só tocava vez ou outra. Era o compadre, convidando-me para pescar”. Nome do treinador: Abílio Sales Ventura.
No geral não posso me queixar do turfe. Orgulho-me de ter muitos e grandes amigos, inclusive vários políticos, entre eles o Jamil Achôa, um homem fora de série. Tenho muitos sinceros amigos entre criadores, proprietários, jóqueis, treinadores, cavalariços e mesmo entre os turfistas.
Não posso esquecer também os diretores, entre eles o José Antonio Pamplona de Andrade, pessoa a quem eu quero muito bem.
Finalizando, lamento profundamente, como a maioria dos turfistas, o encerramento das atividades da Revista “O CORUJA”. Depois de tantos anos lutando, o turfe perde sua bandeira maior.
Ao Dr. Paulo, meu grande amigo, minha solidariedade e meu abraço.