13 dezembro 2011

Pierre Vaz


Achei interessante este texto, contando um pouco da história do Pierre Vaz, um dos fabulosos jóqueis do passado,  pela visão do mesmo. Interessante porque a linguagem é  a típica do turfista, então a leitura corre fácil e agradável.  Fora isso, é uma aula de história turfística. Agradeço ao Marcelo Augusto que me enviou esta raridade. Uma dica para os que gostam de livros antigos:  o "Memórias" - Jockey Club de São Paulo é facilmente encontrado em sebos paulistas. A entrevista completa saem em três postagens, já que é bem grandinha para uma postagem só.

Texto extraído do livro : “MEMÓRIAS” - JOCKEY CLUB DE SÃO PAULO
Autoria: Caetano B. Liberatore
Lançamento : 1994

PIERRE VAZ fala de sua vida no turfe

Comecei a montar oficialmente em Curitiba, Paraná em 1932, no Velho Hipódromo do Guabirotuba, hoje prado do Tarumã. Mas antes eu já montava em raia reta. Eu tinha então 13 anos de idade.
Em 1933 eu fui levado para o Rio de Janeiro pelo Fernando Schneider, em treinador famoso naquela época, já falecido há muitos anos. Fiquei até 38. Apesar de começar no Paraná, meu pai era carioca e eu também.
Mas quando meu pai ficou doente, acho que percebeu que não teria muito tempo de vida, me mandou para o Paraná, para a casa de uma família amiga que tinha cavalos de corrida, para seguir a carreira de jóquei que ele queria que eu fosse.
Eu tinha desde garoto aquela loucura para ser jóquei como meu pai era. É, ele queria, queria, queria e minha falecida mãe não queria de jeito nenhum. Tinha mede.
Então ele me mandou para ficar uns 5, 6 meses à vontade no campo, montando, e quando eu sentisse saudade de voltar para casa, eu escreveria e ele me mandaria me buscar. Viajei para o Paraná sozinho, acompanhado de um amigo dele que ia para Curitiba.
Depois de 6 meses, meu pai faleceu no Rio e eu não voltei mais.
Fiquei no Paraná levando a vida de jóquei, montando em raia reta, correndo desafios, e aí tirei minha matrícula de aprendiz, em 1932.
Ainda como aprendiz, em 1936, ganhei o páreo mais importante da época, o Grande Prêmio Cruzeiro do Sul. Ganhei novamente esse mesmo páreo outras vezes.
Depois do Grande Prêmio Brasil é o prêmio mais importante. É o Derby carioca.
Três anos lá no Rio é muito, dá muita experiência.
Em 38 vim para São Paulo, a convite do falecido treinador Waldemar de Paula Mendes, aquele treinador gordo que cuidava dos cavalos do Dr. Roberto Alves de Almeida, como seu jóquei.
Eu montei em São Paulo até 1964. Aí eu só ia para o Rio periodicamente, todo ano para monta os grandes prêmios. Ganhei os maiores prêmios do calendário turfista de lá, inclusive por duas vezes o Grande Prêmio Brasil, em 1946 e 1949.
Foram 31 anos. E nesse tempo a vitória que mais gostei, na qual mais me emocionei, foi a do primeiro Grande Prêmio Brasil, com MIRON, porque foi uma corrida impressionante. Faltavam 50 metros para o disco e eu ainda vinha atrás do outro cavalo, mais de um corpo.
Foi a vitória em cima do disco. O outro era o Zorro, dos Seabra, montando pelo Domingos Ferreira. O Miron era do Sr. José Paulino Nogueira. Tanto eu gostei disso que o nome do meu haras é Haras Miron, que existe até hoje.
Eu ganhei o Grande Prêmio São Paulo no mesmo ano com o Miron e aí fui para o Rio e ganhei o Brasil. Quer dizer, com esse cavalo eu ganhei os dois grandes prêmios no mesmo ano.
Foi o meu primeiro Grande Prêmio Brasil. Já tinha tirado em 2º lugar, depois um 3º lugar. Tirei sempre colocação, mais consegui ganhar em 1946.
Com o Miron eu vinha atrás um corpo. Eu corria contra 18 animais e estava em 10º lugar. Sempre atrás, que o meu cavalo era demorado. Era “carroção” como nós chamávamos. Era um cavalo demorado para atropelar e o cavalo Zorro corria na frente, longe, já com a corrida praticamente ganha.
Quando faltavam uns 100 metros para o disco, o povo já estava ovacionando o Zorro com o vencedor e o meu cavalo veio, veio, veio. Deu para perceber que ganharia. Eu só pedia que o disco fosse um pouquinho mais adiante porque eu sentia que o meu cavalo vinha alcançando o outro que estava cansando, cansando, e o meu vinha, vinha devagar, mais chegou o disco, ganhando por meio corpo.
Foi emocionante e eu tenho uma fotográfica do meu filho me beijando. Ele tinha só 5 anos.
O Grande Prêmio São Paulo, em 1946, eu lembro bem. Esse ganhei fácil. Essa foi fácil. Chovia muito e a raia estava impraticável. O cavalo favorito do páreo era Secreto, do Stud Seabra. Quiseram retirar o cavalo porque corria mal naquela pista e o Jockey Club não deixou. O Seabra brigou com o Jockey e retirou todos os seus cavalos e os levou para o Rio. Por causa disso, passou uma porção de anos sem trazer cavalo para correr aqui.
Depois é que o Sr. Thomazinho conseguiu trazer o Dr. Seabra para São Paulo.
Naquele dia foi uma vitória fácil, o Miron se adaptou bem à pista molhada e ganhou bonito. O Miron só montei eu... ganhei também o Grande Prêmio 29 de Outubro com ele.
Foi walkover até, desistirem de correr, correu sozinho.
Ganhei outro Grande Prêmio, eu não me lembro o nome.
O melhor cavalo que montei chamava-se CARRASCO. Esse foi o mais corredor. Era do Dr. Oswaldo Aranha, Ministro Oswaldo Aranha. Montei também outros craques. Montei Lunar, montei Mirones; eu nem me lembro o nome de todos.
Mas esse foi o cavalo mais corredor que eu montei. Ganhei o Grande Prêmio Brasil com ele, em tempo recorde. Foi em 1949. 15 dias depois ganhei o Grande Prêmio Jockey Club, em 3.200 metros, também em tempo recorde.
Depois de um mês, ganhei o Grande Prêmio América do Sul, em 4.000 metros, ainda com o mesmo cavalo.
As 3 provas da temporada internacional daquele ano no Rio, ganhei com o mesmo cavalo. Era sempre para o Ministro Oswaldo Aranha. Era cavalo importado da Argentina, melhor do que o uruguaio. O Carrasco foi importado pelo Sr. Atílio Irrulegui, o maior importador de São Paulo. Esse Carrasco deixou pouca descendência, pois morreu cedo.
Eu também cheguei a conhecer a Garbosa Bruleur. Eu corri junto com ela. Quem montava a Garbosa era o Rigoni.
O Emílio Castillo montava o Nizan, mais veio montar a Garbosa Bruleur quando ela fracassou no Grande Prêmio São Paulo, que eles achavam que ela iria ganhar.
Mandaram buscar o Castillo no Rio porque o Rigoni estava meio brigado com o proprietário da égua.
Ela estava no final de campanha. Fracassou, e aí foi a ultima vez que correu.
Eu nunca montei a Garbosa, mas ganhei com Garboleto, que era filho dela. Foi no Grande Prêmio Derby Paulista. Era do Sr. José Bonifácio Coutinho Nogueira, em 60 ou 61, não me lembro agora não. Com esse cavalo também ganhei o Grande Prêmio Consagração.
A Garbosa Bruleur foi uma égua muito boa. Corredora mesmo, muito corredora. E todos os filhos dela foram corredores. Saíram todos bons.
Nesses 31 anos de turfe houve uma corrida que perdi e que mais me deixou com raiva porque era para não ter perdido. Foi com o cavalo CLARETE, Grande Prêmio São Paulo, na inauguração de Cidade Jardim, em 1941, muita gente diz que eu facilitei, que eu joguei o boné antes do disco. Não, o boné caiu. Chovia muito.
A raia estava ruim e o boné muito molhado, caiu. Não havia capacete naquele tempo.
Agora eu perdi porque o meu cavalo sentiu, doeu. Ele tinha um problema na mão direta e sentia. Daí a derrota para o Teruel com o Armando Rosa. Clarete vinha encostando na cerca, na frente. Teruel era um cavalo muito bom, que atropelava duro.
Um ano antes o Teruel ganhou o Grande Prêmio Brasil; eu também tirei o 2º lugar para ele com Caramelo.
E aqui ele ganhou o São Paulo. Era um cavalo que atropelava muito no final. E ele me ganhou nos últimos 100 metros assim.
Meu cavalo até essa altura vinha na frente. Não tinha corrido na frente, corria 3º, 4º, mas tomei a ponta faltando uns 400 metros. E nos últimos 100 metros quando parecia que eu ai ganhar o Grande Prêmio, apareceu o Teruel e me ganhou, mas o meu cavalo ficou doído, foi uma manqueira tão doida que ele nunca mais correu. Foi para reprodução. Era propriedade do Dr. Roberto Alves de Almeida. Sobre o Clarete, devo dizer que numa hora dessas não dá para forçar o animal.
A crônica naquele ano não sabia que o cavalo estava doído na mão, na hora da corrida. Não viram e acharam que eu facilitei um pouco, mais não foi nada disso.
Durante minha profissão toda eu ganhei 2.104 corridas. Em Cidade Jardim, 1983 delas.
E depois outras no Rio de Janeiro, no Paraná, em Campinas. Ganhei o Grande Prêmio Campinas 2 ou 3 vezes. E montei também na Moóca. Ganhei alguns grandes prêmios lá, com o cavalo Caaimbé.
Fui vencedor das estatísticas em São Paulo por 6 vezes. E se não me engano, 5 ou 6 vezes 2º colocado. E um ano empatei com o Gonzalez. É, foi em 1954.
Pois essa história do empate foi muito bonita, porque nós disputávamos desde o mês de agosto. Em setembro, nós ainda disputávamos: eu ganhava, ele ganhava, sempre juntos, diferença de apenas uma vitória, quando chegou no último mês, pegou fogo. Aí o povo ai ao prado e só jogava nas montarias do Pierre e do Gonzalez, porque estavam disputando a estatística há meses, juntos na frente, sempre destacados dos outros.
Era o ano do Quarto Centenário de São Paulo.
Então a maioria torcia para mim, que eu sou brasileiro.
Eu tinha a torcida da maior parte dos turfistas brasileiros. Os adeptos do Gonzalez, brasileiros também, torciam o mesmo para o Gonzalez.
Na minha opinião, ele foi o maior jóquei de bridão que o Brasil conheceu. Essa é que é a realidade, tanto que o apelido dele era “professor”. No tempo em que montava, chamavam a ele de professor.
O meu regime de montar era o de freio. Eu era na época considerado o maior jóquei de freio em São Paulo. Era eu em São Paulo e o Rigoni no Rio. Éramos os campeões de vitórias todo ano.

7 comentários:

  1. Sobre o Pierre Vaz, a quem meu avô considerava o melhor jockey que viu montar no Brasil, o reprodutor do seu Haras Miron foi Jackmar, um filho de Esquimalt que meu avô deu a ele.

    Jackmar que só não foi líder ao seu tempo, pois teimava em perder corridas apertadas para um cavalo chamado Caporal, que era o melhor de seu tempo.

    Salvo engano foram duas ou três derrotas em provas que seriam de Grupo 1 (na época não existia essa classificação) por diferença pequena e para recorde.

    Abs.

    Adolpho Smith

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  2. Adolpho,o caporal não era do haras jahu?

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  3. Leon, ele era dos Almeida Prado e ganhou o Derby de sua geração. Depois serviu no Haras Jahu sim. Claro que não vi ele correr já que tenho 32 anos e estamos falando da geração de 53, mas já li, vi fotos e ouvi muitas histórias do Caporal. Jackmar era criação de Dante Marchione, da provável melhor geração que criou na vida e da qual faziam parte: Jarussi, Jazao, John Araby e Johnny Reed. Adolpho

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  4. Tinha um cavalo tordilho, chamado Estatuto, igualzinho a foto lá em acima, que ganhou nove vezes consecutivas, em distâncias médas, na pista de areia, antes de parar de correr. O Pierre não batia nunca nesse animal, com pelo verdadeiramente lindo.

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  5. Estatuto era do Haras Jaberave, do Jayme Torres. Era ligeiro e corria bem até os 1400. Além de um grande porte, tinha a pelagem totalmente branca. Foi o mais lindo tordilho que vi correr. O preto mais bonito foi sem dúvida Radar, do Stud Seabra. Mais ou menos na mesma época, começo dos anos cinquenta.

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  6. Incrível ler um pouco mais sobre a história do meu bisavô, morro de orgulho ao ver que o seu legado não foi esquecido e fico muito feliz em ler e relembrar a sua história.

    Abs
    Tiago Vaz

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  7. Olá Tiago, conheci seu bisavô na minha infancia. Era muito amigo da minha mãe e sempre nos visitava e nos encantava com as histórias de Jockey.

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