
Terei de me apropriar, no espaço desta matéria, de expressões comuns nos textos de Renato Gameiro.
Quando se trata de informação ao apostador, muito já se discutiu sobre o que é melhor: um catedrático auxiliando com seu estudo, ou um profissional falando a respeito dos seus cavalos inscritos.
Para os "críticos de plantão" , tanto faz, porque este tipo de gente é aquele que julga os outros pelo prisma do seu comportamento em situação idêntica. Ao catedrático, ele reduz a chutador. Pela sua ótica de turfista que gasta longos três minutos estudando um páreo, chute por chute ele prefere os dele. Do treinador, qualquer informação vira uma faca de dois gumes: se o mesmo afirma, "meu cavalo vai ganhar", acha que o mesmo pode estar derrubando, se fala mal, acha que pode ser despiste de uma barbada (infelizmente isso é culpa da coletividade turfística, pois todos temos arraigados, trazido de geração para geração, a ideia do golpe, da armação, da tacada. Bom... "no creo em brujas pero que las hay las hay").
Além disso, é bom assinalar que a leitura da informação desse pessoal, não segue o trâmite natural do assimilar, processar e concluir. Estão mais interessados em apontar as falhas eventuais que virão após o desenrolar das carreiras. Contra isso, o catedrático não tem como escapar, já o treinador, que não é bobo nem nada, tem suas defesas, mas olhem em um exemplo hipotético, como perdem em substância as informações desses treinadores que opinam sem comprometimento:
Repórter: Treinador, o Itajara vai correr esse páreo de perdedor, o que o senhor acha?
Treinador: O cavalo tá bem, tem chance.
Repórter: E treinador, sobre o Zé Ninguém que vai correr a prova de Grupo de hoje?
Treinador: Esse também tá bem. Tem chance.
Perceberam? Qualquer coisa que não seja esse feijão com arroz é super arriscado e sair deste trilho com informações que não se confirmem, pode levar os turfistas à ira. Peguemos a malfadada entrevista do J.C.Sampaio ao site do JCB. A rigor, o que queremos "a priori" é justamente este tipo de declaração. Um comprometimento, pois o treinador afirma: este vai ganhar, este outro é fraco e treina mal. Ou seja, o treinador dá nome aos bois. Se o que ele falou se concretizou nas pistas, não fez mais do que a obrigação. Caso contrário, e foi o que aconteceu , as críticas vieram com toda a força. Aqui, abro um parêntese (desculpa mais essa apropriação, Renato) para dizer que não está nos planos desta postagem, juízo de valor sobre este fato.
Agora, é preciso que se defina o que se quer. Se uma informação que não acrescenta absolutamente nada, ou se afirmativas claras que podem vir a não se concretizar em corrida. Talvez "os detratores do óbvio" prefiram a primeira opção. Lembro de outra entrevista, do treinador M.F.Gusso, recentemente na TV Jockey, em dia de estreia de vários potros. O resultado final de suas declarações poderíamos chamar de fantástico, com várias dicas preciosas que ajudaram em quem nelas confiaram. Mesmo com esta qualidade, teve uma opinião que não se confirmou em carreira. O treinador gostava muito de Lonely King, em páreo que tinha outra inscrição. Resultado: o outro inscrito, Bladetop Di Job, acabou ganhando.
Esse foi o único senão, o M.F.Gusso passou umas vinte informações precisas, e essa que não se concretizou. A pergunta que fica é a seguinte: e se metade das informações não se concretizassem (isso poderia ter ocorrido), o quão mal não se teria falado do treinador, pois escutei "os onipresentes críticos de plantão" reclamando por este erro de apreciação. Ainda bem que os elogios pelos sem números de acertos foram de boa monta, também. Nem só de injustiças se move o Turfe.
O que precisa se entender é que quem se compromete, um hora vai errar. Claro está, que se o comprometimento vier com um índice alto de informações que não se confirmam posteriormente, então melhor não se entrevistar mais este treinador como subsídio.
Voltando aos catedráticos, gostaria de deixar abaixo, principalmente para aqueles que se acham sábios na matéria e que gastam 30 minutos semanais no estudo da revista (minha crítica não é contra quem estuda pouco e sim contra quem estuda pouco e tem pretensão de achar que catedrático todo mundo é), o que eu penso que seja uma tentativa de se chegar a cátedra:
1) Ler a revista "quase" todo mundo sabe. Tem gente que não sabe. Processar a informação recebida, fazendo correlações pertinentes em busca da luz, já é tarefa para poucos.
2) Se você acha que a revista basta, está redondamente enganado. Replays à exaustão, confrontamentos estatísticos, anotações de prejuízos,arquivo de comentários sobre percursos mal feitos ou sobre cavalos favoritos que tiveram tudo a favor e mesmo assim não venceram, maneira como os animais atingiram a vitória, pesquisas na internet sobre eventuais estreantes penqueiros que não constam do retrospecto, estudo do pedigree dos estreantes, correções nas falhas constantes da revista. Tudo isso em busca de aprimoramento.
3) Aí vem a parte mais complicada. Descobrir em páreo de mesma enturmação, quais foram os mais fortes. Utilizar o parâmetro que terá maior peso na apreciação de determinado páreo. Tirar proveito das peculiaridades de uma pista (elas mudam ao sabor do vento). Aproveitar o cânter para descobrir o estado físico dos animais. Diferenciar o trigo do joio, sobre eventuais informações recebidas. Parece complexo e, aqui, o que parece é.
Para os que descobrem seus favoritos em poucos minutos de profundo estudo, como se fosse jogo de soma e subtração (vem de quarto, depois de segundo, agora ganha), deixo a minha perplexidade e a certeza de que, se os resultados financeiros forem positivos, tratar-se de gênio da matéria. A matemática é apenas um dos ingredientes que ajudam a aclarar o assunto que é de enorme densidade.
Lembrando que os que, por ventura, se pautarem pelas dicas acima, farão apenas uma tentativa de aprendizado, o certificado só vem na maestria de processar adequadamente as informações obtidas. Ao mesmo tempo, ter a percepção de que neste jogo, dado a complexidade, maestria significa conhecimento raso e superficial, tantas são as infindáveis possibilidades de combinações de fatores e parâmetros que se pode fazer.
Como já dizia meu querido pai Juca (seria um alter ego da vó Adelina?!): turfe é areia movediça, onde a sabedoria está no fundo, chegar até lá e percebê-la é tarefa penosa; sair de lá, trazendo-a a reboque é um dos doze trabalhos de Hércules.