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26 julho 2013

Jorge Luis Borges

Stud Figuron & VarandaO nosso (traduzido)

Amamos o que não conhecemos, o já perdido.
O bairro que já foi arredores
Os antigos que não nos decepcionaram mais
porque são mito e esplendor.
Os seis volumes de Schopenhauer que jamais terminamos de ler.
A saudade, não a leitura, da segunda parte do Quixote.
O oriente que, na verdade, não existe para o afegão, o persa ou o tártaro.
Os mais velhos com quem não conseguiríamos
conversar durante um quarto de hora.
As mutantes formas da memória, que está feita do esquecido.
Os idiomas que mal deciframos.
Um ou outro verso latino ou saxão que não é mais do que um hábito.
Os amigos que não podem faltar porque já morreram.
O ilimitado nome de Shakespeare.
A mulher que está a nosso lado e que é tão diversa.
O xadrez e a álgebra, que não sei.


Lo nuestro (no original)

Amamos lo que no conocemos, lo ya perdido.
El barrio que fue las orillas.
Los antiguos, que ya no pueden defraudarnos, porque son mito y esplendor.
Los seis volúmenes de Schopenhauer, que no acabaremos de leer.
El recuerdo, no la lectura, de la segunda parte del Quijote.
El oriente, que sin duda no existe para el afghano, el persa o el tártaro.
Nuestros mayores, con los que no podríamos conversar durante un cuarto de hora.
Las cambiantes formas de la memoria, que está hecha de olvido.
Los idiomas que apenas desciframos.
Algún verso latino o sajón, que no es otra cosa que un hábito.
Los amigos que no pueden faltarnos, porque se han muerto.
El ilimitado nombre de Shakespeare.
La mujer que está a nuestro lado y que es tan distinta.
El ajedrez y el álgebra, que no sé.


08 novembro 2012

Mais uma de Mario Quintana

Pergunta Errada

Se eu acredito em Deus? Mas que valor poderia ter minha resposta, afirmativa ou não? O que importa é saber se Deus acredita em mim.

Mario Quintana

16 outubro 2012

Mario Quintana

INSCRIÇÃO PARA UM PORTÃO DE CEMITÉRIO

Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce - uma estrela,
Quando se morre - uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
"Ponham-me a cruz no princípio...
E a luz da estrela no fim!"

11 setembro 2012

Vida e morte no olhar de Machado de Assis


UMA CRIATURA


Sei de uma criatura antiga e formidável,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas
Com a sofreguidão da fome insaciável.

Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.

Traz impresso na fronte o obscuro despotismo;
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.

Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta de colibri, como gosta de verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.

Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto areal um vasto paquiderme.

Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.

Pois essa criatura está em toda a obra:
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
E é nesse destruir que as suas forças dobra.

Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a morte; eu direi que é a vida.

27 outubro 2011

A barbada - Carlos Alê

Um cordel de Carlos Alê, poeta, creio que gaúcho, de que tenho poucas informações. Para quem quiser conhecer melhor a sua obra, no Recanto das Letras há uma infinidade de seus poemas.



A BARBADA

A corrida de cavalos
é um esporte bretão
Porém no mundo inteiro
existe a competição
Pra muitos é um negócio
e pra outros diversão

O turfe, como é chamado,
tem histórias curiosas
de apostadores perdendo
importâncias volumosas
em corridas que pra eles
pareciam vitoriosas

O apostador contumaz
talvez mereça um estudo
Mas tem o ganancioso
que não aposta miúdo
É o caso dos pilantras
que um dia apostaram tudo

Eles eram seis amigos
empregando o capital
das suas agiotagens
pois queriam afinal
investir numa empresa
de alcance regional

Pontes,Machado,Silvano,
Cardoso,Amorim e Jota
nos seus negócios agora
iam gastar uma nota
aplicando numa empresa
cada um a sua cota

Entretanto Pontes era
frequentador de corridas
e se achava experiente
por tantas já assistidas
Mas apostas vitoriosas
tinha menos que perdidas

Pensando que já sabia
ganhar dinheiro em aposta
um dia tomou coragem
pra fazer uma proposta
aos outros sócios de quem
esperou uma resposta

- Nós podemos aumentar
esse nosso capital
vencendo uma corrida
do torneio nacional
duplicando o valor
dessa verba inicial

As apostas em cavalos
são um jogo de xadrez
É preciso pra apostar
raciocínio e sensatez
Como podemos vencer
vou explicar a vocês

O cavalo em questão
é um grande velocista
e ainda é desconhecido
do apostador turfista
Vai ficar no box um
que é o melhor da pista

O jóquei mais vencedor
estará nele montado
E pelo seu treinador
o cavalo é bem tratado
Tenho boas referências
do haras que foi criado

Esse cavalo está
no esplendor da idade
Vai correr em pista seca
sua especialidade
Pois é onde desenvolve
a maior velocidade

Mas quando é conduzido
não sabe trotar direito
Dar impressão de mancar
é seu único defeito
No rateio deste páreo
ele não será aceito

Estou passando a vocês
de uma fonte segura
informações de cocheira
não apenas conjetura
A vitória com certeza
vai nessa cavalgadura

E o Pontes conseguiu
provar com seu argumento
que apostar no cavalo
era um grande investimento
e entre todos os sócios
houve um entendimento

Mas eles só repetiam
um erro já conhecido
E perder o seu dinheiro
era o prêmio merecido
Era preciso saber
que não há páreo corrido

E no dia da corrida
foram todos ao guichê
e apostaram no cavalo
sem desconfiar porque
terminaria o páreo
sem pagar nem o placê

Conforme Pontes previu
na sua argumentação
o cavalo manquejou
na sua apresentação
e ninguém estava ali
pra apostar num azarão

Quando foi dada a largada
o cavalo foi pra ponta
O jóquei descia o braço
confiando em sua monta
A estratégia na corrida
ficava por sua conta

O segundo e o terceiro
avançavam descontando
O quarto, quinto e o sexto
atrás já vinham voando
mas o cavalo de Pontes
respondia acelerando

Aquilo foi a surpresa
daquela competição
O cavalo reputado
como um grande azarão
avançava absoluto
na primeira posição

E correndo muitos metros
sem ninguém pedir passagem
o cavalo já corria
com seis corpos de vantagem
parecendo um foguete
partindo para a viagem

Quando entraram na curva
ainda estava na frente
e a platéia assistia
um desempenho excelente
mostrando que seu piloto
era muito experiente

Apostadores lembraram
que nessa competição
o cavalo que na curva
desgarrou do pelotão
também cruzou pelo disco
se sagrando o campeão

Parecia que a prova
já estava definida
e o cavalo de Pontes
venceria a corrida
Porém na longa distância
a disputa é mais renhida

Para todos os pilotos
chegava aquele momento
que o cavalo é refreado
para um galão mais lento
porque já corre na pista
beirando o esgotamento

Foi aí que o piloto
o percurso calculando
nesse ponto seu cavalo
foi na pista acomodando
sem notar que o segundo
já estava aproximando

E o jóquei de repente
olhando só de soslaio
viu tomar a dianteira
avançando feito um raio
um cavalo que no turfe
é chamado paraguaio

Paraguaio é o cavalo
que avança em velocidade
mas dando impressão que vai
vencer com autoridade
ele entrega os pontos quando
vem a hora da verdade

Foi o que aconteceu
com o cavalo em questão
Correndo que só um galgo
atiçado em lebrão
foi perdendo o seu gás
e esmoreceu o galão

Confirmando a sua fama
esmoreceu de repente
Ninguém esperava dele
resultado diferente
e o cavalo de Pontes
voltou a tomar a frente

Nesse ponto já estavam
correndo a reta final
Para o piloto era
um momento crucial
pra confirmar a escrita
vencendo o páreo afinal

O favorito da prova
vinha correndo fechado
e o jóquei nem exigia
do cavalo pilotado
que embora fosse veloz
corria prejudicado

Porém com categoria
encontrou uma passagem
e avançou atropelando
pra descontar a vantagem
correndo como a pantera
percorre o campo selvagem

O favorito já ia
perfeito em sua tocada
e o cavalo pilotado
mostrou em sua passada
ter o gás suficiente
para uma atropelada

Mas o primeiro seguia
demonstrando seu valor
e avançava para o disco
disparando com vigor
Veloz que só caloteiro
quando vê o cobrador

O jóquei desenvolvendo
uma estratégia correta
acelerava o cavalo
para não perder na reta
Ser recordista em corridas
era sua grande meta

E livrando cinco corpos
do segundo colocado
não havia mais terreno
para ser ultrapassado
e conseguiu atingir
o triunfo almejado

O Pontes e seus amigos
festejaram a vitória
que todos reconheciam
tinha sido meritória
pela raça que o cavalo
demonstrou na trajetória

O futuro da empresa
já estava garantido
Era muito o dinheiro
que veriam repartido
Só eles tinham a pule
daquele páreo vencido

Porém do alto-falante
veio um comunicado
O jóquei na repesagem
fora desclassificado
pois perdeu peso demais
pelo esforço empregado

Quando isso acontece
a pule não ganha nada
e não há ressarcimento
pela soma apostada
Do turfista azarado
a história vira piada

Com outros apostadores
a vitória festejando
e cercado pelos sócios
que estavam espumando
o Pontes nesse revés
não estava acreditando

E levou eles até
o lugar da repesagem
Porém lá foi confirmado
na rigorosa triagem
que o piloto perdeu
indevida porcentagem

O Pontes ficou nervoso
sem saber o que dizer
Nesse ponto os seus sócios
queriam nele bater
pois não pensavam que ele
saberia o que fazer

- Perdemos nosso dinheiro
quem quiser me achincalhe
Mas pra apostar em cavalos
não vejo quem me iguale
Quem é que pode prever
a derrota num detalhe?

Mas qualquer explicação
não queriam mais ouvir
Com medo de apanhar
sem ninguém pra acudir
o Pontes foi para a pista
e começou a fugir

Os sócios foram atrás
cada qual mais furioso
por terem acreditado
num discurso enganoso
pois perder dinheiro assim
era muito afrontoso

Pontes corria na frente
com Cardoso no encalço
que já ia aproximando
mas ele pisou em falso
Um sapato ele perdeu
e um pé ficou descalço

E Cardoso manquejando
logo foi ultrapassado
por Silvano que corria
muito mais acelerado
e atrás dele já vinham
Amorim, Jota e Machado

Fora de forma Silvano
com pouco perdeu o gás
Queria pegar o Pontes
mas não sentiu-se capaz
Parou na pista arfando
e foi deixado pra trás

Machado correndo muito
parecia um projetil
Ele era o mais zangado
e ferido no seu brio
Estava alcançando Pontes
mas tropeçou e caiu

E Pontes continuava
fugindo ligeiramente
Quando entraram na curva
ele seguia na frente
Que ele ia escapar
já estava evidente

Enquanto Cardoso e Jota
para trás foram ficando
o Amorim resoluto
já estava aproximando
mas o Pontes assustado
prosseguiu se afastando

Pontes agora corria
com dez corpos do rival
e cobrindo o percurso
daquela pista central
botando a língua pra fora
cruzou o disco final

Conseguindo escapar
pulou a cerca do prado
e atravessando a rua
alcançou o outro lado
Quase não tocava o chão
correndo desesperado

E lá naquela cidade
nunca mais ele foi visto
Na corrida de cavalos
quem vence é o imprevisto
Quando você for ao prado
nunca se esqueça disto

07 março 2011

Antonio Machado e Paco Ibañez

O meu conhecimento de poetas espanhóis é quase nulo, mas dos que conheço, Antonio Machado (1875-1939) é meu preferido, seguido de perto por Garcia Lorca. Para estes duros dias de carnaval que ainda nos restam, deixo um poema do mesmo versando sobre sonhos, realidade, vida e morte, tudo centrado na figura de um cavalo. Iria colocar apenas o poema, mas descobri uma versão musicada, bastante simpática de Paco Ibañez, cantor espanhol que dedica quase toda sua obra a fazer versões musicadas de poemas.

Era un niño que soñaba





Era un niño que soñaba
un caballo de cartón.
Abrió los ojos el niño
y el caballito no vio.
Con un caballito blanco
el niño volvió a soñar;
y por la crin lo cogía…
¡ Ahora no te escaparás!
Apenas lo hubo cogido,
el niño se despertó.
Tenia el puño cerrado.
¡ El caballito voló!
Quedóse el niño muy serio
pensando que no es verdad
un caballito soñado.
Y ya no volvió a soñar.
Pero el niño se hizo mozo
y el mozo tuvo un amor,
y a su amada le decía:
¿ Tú eres de verdad o no?
Cuando el mozo se hizo viejo
pensaba: todo es soñar,
el caballito soñado
y el caballo de verdad.
Y cuando vino la muerte,
el viejo a su corazón
preguntaba: ¿ Tú eres sueño?
¡ Quién sabe si despertó!

(Trad. José Bento)
Era um menino a sonhar
com um cavalo de cartão.
O menino abriu os olhos
e não viu o cavalinho.
Com um cavalinho branco
ele voltou a sonhar;
pelas crinas o prendia…
Assim não te escaparás!
Mal o conseguiu prender,
logo o menino acordou.
Tinha a sua mão fechada.
O cavalinho voou!
O menino ficou sério,
pensando não ser verdade
um cavalinho sonhado.
Já não voltou a sonhar.
E o menino fez-se moço
e o moço teve um amor,
e dizia à sua amada:
Tu és de verdade ou não?
Quando o moço se fez velho
pensava: Tudo é sonhar,
o cavalinho sonhado
e o cavalo de verdade.
E quando chegou a morte,
o velho ao seu coração
perguntava: Tu és sonho?
Quem saberá se acordou!

i

26 maio 2010

Otelo

Acertei o prognóstico em quase todas as vitórias de Otelo.
Na corrida de segunda-feira, não o havia citado nem para terceiro.
O cavalo, mesmo anotado para ir com 64 quilos, brigou na frente
com o alucinado Patinho Feio e mesmo depois deste esforço todo,
resistiu com galhardia ímpar. Pena, os 100 gramas a menos na balança.
Fiz este poema para lhe homenagear:

Otelo foi escrito por um inglês
mas levava na alma o legado dos mouros,
o cavalo é puro sangue inglês
raça que merece todos os louros


Ao grande general acusaram de bruxaria
para ter o amor de Desdemona,
o corcel também é adepto da magia
são seis vitórias a fio enlouquecendo as redomonas

Por causa dos inimigos
a erros Otelo incorreu,
já na mão dos Amigos da Barra
o nosso Otelo sempre correu

O mouro nunca conseguiu se livrar de Iago
nem por reza a todos os santos,
por ironia, ao ex matungo
nunca montou o Tiago
quem lhe entende melhor é um jóquei matuto
o baianinho Fagner Rodrigues dos Santos

18 março 2010

O Navio Negreiro

Na escola é poema obrigatório, mas nessa idade não temos maturidade suficiente para admirarmos o belo, pelo menos eu não tinha. Muito tempo depois, comprei um cd do Caetano que tinha parte dos versos declamados e musicados (clique aqui para ouvir). Aí sim pude ver a genialidade de Castro Alves. Apenas 22 anos tinha o poeta quando verteu ao povo brasileiro o seu grito de indignação contra a escravidão do humano para o humano, do branco para o negro. Poesia digna de figurar entre as melhores já escritas.

Hoje no You Tube, descobri estes versos fortes mas que são capazes de quebrar a resistência dos corações mais empedrados, na voz de Paulo Autran. Senhores é impressionante a cadência desta declamação. Tenho certeza que o autor do vídeo, assim o fez, na intenção de comover e chocar a quem o assiste. De fato, conseguiu, pois pegou para pano de fundo da poesia, o filme de Steven Spielberg, Amistad, com cenas realmente muito fortes. Espero que gostem (abaixo do vídeo vai a poesia completa, bem extensa, e que também não é declamada inteira por Paulo Autran).






O Navio Negreiro
(Tragédia no mar)



'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.


'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...


'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...


'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...


Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.


Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!


Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!


Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!


Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia,
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...
..........................................................


Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!


Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.



II

Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.


Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!


O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!


Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu!...



III

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!



IV

Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...


Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!


E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...


Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!


No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."


E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...


V

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!


Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...


São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão...


São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.


Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...
...Adeus, ó choça do monte,
...Adeus, palmeiras da fonte!...
...Adeus, amores... adeus!...


Depois, o areal extenso...
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.


Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...


Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...


Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!...



VI

Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!...
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!



São Paulo, 18 de abril de 1869.
(O Poeta, nascido em 14.03.1847,
tinha apenas 22 anos de idade)

07 janeiro 2010

GAUDÊNCIO SETE LUAS FALA DE PENCAS


Luiz Coronel

Onde houver penca eu descubro.
Apronto rédeas e rimas.
Eu desato o lenço rubro
e atiro o chapéu pra cima.

Ganhei pencas, mais de um cento,
perdi uma no focinho.
Só não corro contra o vento
porque o vento é meu padrinho.

Vai a crina em desalinho,
batem tambores os cascos.
Há tragos, milongas e vinhos
e nas brasas um churrasco.

Àguas lépidas da fonte
deram ao potro estas ânsias
de alcançar o horizonte
engolindo estas distâncias.

Rédea solta pra alegria,
deixa atrás os desenganos.
As horas montam os dias
na cancha-reta dos anos.

Lá vou eu, no trote lento,
assobiando no caminho.
Só não corro contra o vento
porque o vento é meu padrinho.
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