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08 maio 2017

A guerra que trouxe a paz

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Esta é a posição a que chegaram, depois de quase um século a jogar, Maomé x Moisés (diagrama 1). É considerada por alguns especialistas em Teologia, como a partida das ilusões perdidas.

A primeira vista, parece uma posição impossível de se chegar, dado que há peões dobrados e todas as peças permanecem sobre o tabuleiro. Porém, este é um jogo basicamente de fé, e como sabemos, a fé remove montanhas. Ao ver seu Deus desprotegido, soldados hebreus aprenderam por milagre a andar em diagonal e, de milagre em milagre, formaram poderosa couraça protegendo o Senhor.

Soldados muçulmanos começavam a mesma manobra quando Alá, suspeitando que dentre eles havia um radical xiita, adepto de meios bombásticos para resolver situações, suspendeu a evolução da infantaria. Mesmo sendo Deus, uma bomba a estourar do Seu lado, provocaria seus estragos.

Voltemos ao jogo: Moisés acaba de ser informado pelo Serviço Secreto Israelense que o homem-bomba está a um passo do paraíso prestes a capturar em c4 e acabar com a disputa.

Não dá mais para permanecer na cordialidade secular que a contenda até então nos mostra. É preciso revidar àqueles que desejam exterminar com a história do povo judeu. Pega sua Dama e faz a primeira captura do jogo: Dxb3!

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O lance provoca uma explosão sem precedentes, voam pelos ares casas, seres humanos e "quase humanos", além é claro, do próprio homem-bomba. Nada e ninguém sobrevivem nas colunas  "a" e "b". Eis o novo cenário (diagrama 2).
Neste momento, Maomé, a quem cabe o lance, excitado pelos acontecimentos, fala:
"Moisés, estamos há quase cem anos nesta peleja que tem por objetivo unificar as Religiões Abraâmicas, quem perder perece, quem ganhar se fortalece perante ao Cristianismo, mas nossa demora está a favorecer os seguidores de Jesus.
Sugiro que, em vez de lances, possamos tirar peças do tabuleiro a fim de criarmos ameaças de mate, urge um vencedor. Lances de verdade, como fala a regra original, só seriam feito como execução, ou seja, o famoso Mate em um."
O líder Hebreu, excelente jogador de "relâmpago" e já vendo alguns lances na frente, concorda com um grunhido de aprovação.


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Então Maomé saca o Bispo de f6 e ameaça mate em um, com Ce7 (diag.3); Moisés responde, eliminando o cavalo de f5, ameaçando mate com Cg4 (diag.4).




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Obcecado em atacar, não vê que ao tirar o cavalo de f5, permite mate imediato ao adversário, com o simples Be4.
O Profeta, outro obcecado, mas em  defender, também não vê o mate óbvio e diz que neste momento, para acertar o passo, vai apenas desaparecer com o cavalo de h6 (diagrama 5). Moisés caçoa do rival:
"Seu Deus torce por nós, lhe turvou a visão no momento decisivo ."
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Depois deste susto, aquele que um dia dividiu um mar em dois, fica bem mais agressivo, usa de qualquer subterfúgio para obter vitória imediata a qualquer preço:
"Já quebramos vários mandamentos e na guerra não existe ética, muito menos virtude. Se você pode "acertar o passo", eu posso sumir com duas peças de uma só vez." 
Empurra para fora, o bispo ameaçador e o cavalo do canto do tabuleiro (diagr.6). A ameaça criada, de h1=C#, o envaidece.

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Não vale a pena tentar descrever a cara colérica de Maomé. Diz furioso:
"Deixa de ser velhaco, seu profetinha de meia tigela! Fui generoso, ofereci a outra face como preconizam aqueles outros. E o que recebi em troca? Apenas violência. Agora é dente por dente, olho por olho." 
Retira os peões de h2 e d4, e, rapidamente sem deixar reação ao oponente efetua e4 (diagrama 7). Mate! Vitória do Islã!

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A alegria não dura muito. Surpreendentemente calmo, o condutor das peças pretas levanta o braço e pede a intervenção do árbitro, Nosso Senhor Jesus Cristo. Fala:
"Messias, há dogmas que não podemos fazer desacreditar, nem em tempo de guerra. O primeiro é de que cremos em um só Deus, mas quase tão importante quanto este, é o de dar imortalidade a todo aquele que colocar sua vida a serviço de Deus. Os peões que envolvem o Ser Supremo são intocáveis, invioláveis e imortais, não são peões são anjos." 
Jesus balança a cabeça aquiescendo e faz voltar a partida ao momento da confusão (diagrama 8).
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 "Maomé não volta lance, comigo é tocou jogou.  Deixa o meu peão em e4 e veremos as consequências." 
Ao que, em uma gargalhada, Moisés responde:
" Oh, imbecilidade que permeia o mundo, não sabe as regras do jogo de xadrez em sua totalidade. Vou dizer por extenso e em linguagem que a moçada não conhece mais: peão toma peão "en passant" mate (diagrama 9). O Islamismo morreu."

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Agora é  a vez de Maomé inquirir Jesus:
"Companheiro Isa, aquela história de Anjo imortal que está do lado de Alá deve continuar valendo. Portanto, o peão de e4 é imortal (já que ele estava em e2, do lado do Criador), sendo o lance "en passant" impossível de realizar. Tô certo ou tô errado?"
Jesus, já com expressão incerta, continua a oscilar a cabeça afirmativamente. Há mais uma volta à posição crítica (diagrama 10). Percebe-se os três líderes meio  confusos. A tentativa de convencer o Árbitro, feita por Moisés, é brilhante:
"No sentido lato da lei o "ao passo" não pode ser proibido. Mesmo respeitando a imortalidade do peão de e4, o direito de ir e vir é assegurado por lei e apoiado por todas as nações progressistas. Portanto, realizo o movimento, convicto de sua factibilidade, mesmo não havendo captura."
Dado o insólito que se produz no tabuleiro, uma voz gutural,vinda do tabuleiro grita que pau que bate em Jeová, vai cantar dobrado na cabeça de Alá.

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A posição resultante é a mais extraordinária da história do Xadrez (diagrama 11). Jesus abre a Bíblia em busca de alguma solução miraculosa, não há. Dois Deuses (ou seria um só?) em xeque ao mesmo tempo, sem que tenha havido lance impossível anteriormente, é uma situação única que ocorre no quadrado mágico. Nem o Novo muito menos O Velho Testamento conseguem explicar.
No íntimo, o Mestre se compraz. Está a um passo de matar dois coelhos com uma só cajadada.

Moshe Rabbenu e Muhamed (declinam seus nomes de uma outra forma, dada a vergonha de fazer seus Deuses passarem por  esta situação), ao perceberem que Nietzsche está prestes a confirmar a sua famosa frase  de que "Deus está morto", desiludidos pela tragédia que o tabuleiro mostra, se olham com  menos beligerância e até, quem diria, com alguma compreensão. Pensam e falam ao mesmo momento: " Está na hora de recuar." Mais uma vez, o autor da Torá dá norte as ideias:
"Anjos não podem desgrudar da Divindade. Vejam o exemplo de Satanás, que desgrudou e sabemos  muito bem no que deu."
Sem que ninguém toque qualquer peça, mais um milagre acontece. Os peões, por conta própria, voltam para o lado de seus protetores. Moisés complementa:
"Amigo Maomé, jogue Txd1 que eu, mesmo um pouco melhor, aceitarei o empate."
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Maomé executa o lance e os dois levantam a bandeira branca (diagrama 12). É selado o armistício. Foi assim que o Xadrez fez a paz onde nenhuma divindade havia dado jeito.
Moisés vai embora, guardando a planilha com o  mesmo zelo com que carregou as Tábuas da Lei. Jesus e Maomé seguem por caminho inverso e Cristo, encantado com a estratégia e tática do Profeta, pergunta, mostrando intimidade:

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"Mao, entendi tudo, o único senão foi aquele peão em d7. Foi a única peça que não serviu para nada." 
 "Deixei engatilhado, Jesus. O amigo Moisés parece boa gente e eu o perdoei. Mas se voltar a cantar de galo, reiniciamos a Guerra do ponto em que foi acertado o empate, uso uma bazuca na Torre , ofereço o Inferno a Satanás e faço nascer a mulher com quem virei a casar (diagrama 13)."


De certo a dama é Aïcha, pensa Jesus, e reconhece que nem seu Pai lhe ensinou coisas tão maravilhosas...

17 agosto 2012

A ditadura Putin descendo o cacete

Vejam a foto de Garry Kasparov, ex campeão mundial de xadrez, e considerado um dos três melhores jogadores de todos os tempos, sendo agredido pela polícia de  Putin, na Rússia, agora de manhã. Kasparov estava entre os manifestantes contrários à prisão  de três integrantes do grupo punk Pussy Riot (belo nome para um grupo punk!), em frente ao Tribunal de Moscou (entenda o caso Pussy Riot clicando aqui). Enfim, uma vergonha...


15 maio 2012

No turfe não iria acabar bem

 Matéria que saiu na "Isto É " dá conta que mulheres não podem mais jogar xadrez com decote. Transportando para o turfe, vocês já imaginaram a Josiane e a Jaqueline pilotando de fio dental!?

 

Decote em xeque

Em decisão polêmica, União Europeia de Xadrez proíbe o uso de blusas decotadas por mulheres enxadristas, após reclamações de espectadores e técnicos

Paula Rocha

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DISTRAÇÃO
Segundo associação, mulheres com roupas provocantes
podem atrapalhar o desempenho de jogadores homens
Fundamentado no uso de tática e estratégia, o xadrez é um jogo que exige extrema concentração. Alguns jogadores europeus, porém, têm perdido o foco na partida por causa de suas oponentes do sexo feminino. O motivo? Generosos decotes exibidos pelas enxadristas. A falta de decoro das moçoilas que praticam um dos jogos de tabuleiro mais antigos do mundo levou a União Europeia de Xadrez a criar um código de vestimenta para o esporte. “Tivemos essa ideia porque notamos que, durante os jogos, muitas participantes não usavam roupas apropriadas, o que gerou reclamações do público e de técnicos”, disse Sava Stoisavljevic, secretária-geral da entidade. “Há códigos de vestimenta em diversos esportes, então decidimos estabelecer nossas regras também.” Segundo o manual, caso a mulher esteja usando uma blusa de botões, por exemplo, abrir o primeiro botão, contando de cima para baixo, é permitido. Abrir o segundo, dependerá do modelo da blusa. Já abrir o terceiro está fora de cogitação.

O frisson causado por enxadristas com roupas decotadas se torna maior pelo fato de que há poucas mulheres praticantes de xadrez no mundo. Apesar de elas estarem presentes desde os primórdios do jogo – os primeiros registros de jogadoras remontam ao século I –, o número de homens praticantes supera com larga vantagem a quantidade de mulheres. Apenas no Brasil, segundo estimativas da Confederação Brasileira de Xadrez (CBX), há em torno de 1,8 milhão de enxadristas do sexo masculino, contra somente 600 mil mulheres.
A entidade, no entanto, não pretende adotar aqui as mesmas medidas da Europa. “Acredito que essa decisão é muito particular. Condiz com a realidade europeia, mas não se reflete aqui no Brasil”, diz Charles Moura Netto, vice-presidente da CBX. “E, na minha opinião, a roupa que a oponente está usando não deveria influenciar o desempenho de um jogador.” Já a jovem enxadrista Juliana Terao, mestre Fide internacional, vê com bons olhos a polêmica medida adotada por seus pares europeus. “Alguns jogadores, tanto homens quanto mulheres, não têm bom-senso e vão para as partidas usando regata e chinelo”, diz Juliana. “Por isso, essas restrições são boas do ponto de vista do esporte. Roupa de campeonato de xadrez deve ser igual a uma roupa de trabalho”, completa.
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29 dezembro 2011

Xadrez

Encontrei no Tabuleiro de Xadrez  essa divertida imagem com posições iniciais de partidas, jogadas conforme a ideologia de cada um. Gostei bastante dos três primeiros, já o último eu chamaria de "Xadrez Sodoma e Gomorra", mas valeu.


17 novembro 2010

A exterminadora do futuro

No campeonato feminino russo de xadrez, uma das participantes é um robô (robô têm sexo??) . Programas de xadrez com nível de campeão do mundo não são mais novidade no mundo enxadrístico, porém uma engenhoca, acoplada a tais programas e que consegue fazer todos os movimentos de uma partida (mexer peças, capturar, acionar o relógio), isso sim é extremamente novo. Não sei se por acaso ou não, Magnus Carlsen (tem tudo para ser o próximo campeão mundial) e Vladimir Kramnik (campeão do mundo em 2000) visitaram o evento e este último não resistiu ao apelo de jogar uma partida rápida contra a "moça". Lembrando que entre 25 de novembro e 5 de dezembro de 2006, Kramnik enfrentou o computador Deep Fritz  em um match histórico de partidas pensadas e foi derrotado, perdendo 2 partidas e empatando 4. Aqui no vídeo mostrado logo abaixo, foi tudo apenas uma brincadeira, porém é bom que se diga que na posição final, apenas as brancas têm chance de vitória. Vamos a partida:

31 março 2010

Magnus Carlsen

O gênio que não quer sê-lo

Leontxo Garcia 28/03/2010

"Estou me lixando para minha potência mental", disse há 20 anos o indiano Viswanathan Anand de 40 anos, atual campeão do mundo, após exames médicos que revelaram uma capacidade cerebral única. "Me sinto um idiota em muitas ocasiões" falou Magnus Carlsen, de 19, o número um mais jovem da história do xadrez. Disse há dois meses atrás, quando Michael Robinson tentou que o norueguês falasse de sua grande inteligência em uma entrevista para o Canal +. Anand e Carlsen são super-dotados, e provavelmente houvessem triunfado em campos muito distintos ao xadrez. Mas encontraram a felicidade em um fascinante mundo de 64 casas e não querem dar uma de prodígios.
Gênio: capacidade mental extraordinária para criar ou inventar coisas novas e admiráveis, disse a Real Academia. Basta desfrutar das partidas de Carlsen (ou de Anand) para comprovar que respondem a esta definição. Embora ele mesmo veio com outra em 17 de janeiro de 2008, quando morreu Bobby Fischer, campeão do mundo de 1972: " O que mais admiro nele é sua capacidade para que pareça fácil o que na realidade é muito difícil. Eu tento imitar-lhe".
Mas tampouco há dúvida que Carlsen é um super-dotado no geral, não apenas para o xadrez, ainda que ele não queira saber de seu quociente de inteligência. Para dar um exemplo, aos cinco anos memorizou as capitais, a superfície e o número de habitantes de quase todos os países do mundo, e dados similares de todos os municípios noruegueses. Em princípio, um super-dotado é um privilégio para seus pais, mas também pode ser um pesadelo se se aborrece muito na escola ou não se adapta a um mundo organizado para pessoas de muito menor capacidade mental. Os pais de Carlsen acertaram ao levar-lhe, junto com sua irmãs, a viajar pelo mundo durante um ano, quando tinha 13. Se viajar é sempre uma excelente escola de vida, muito mais em um caso como o seu. Naquela época já era o Grande Mestre mais mais jovem do mundo, pelo que compareceu com sua seleção nacional a Olimpíada de Xadrez de 2004 na Espanha, de onde as recepcionistas não o deixavam passar ao cenário de jogo porque não acreditavam que aquele menino fosse o melhor jogador da Noruega.
Os super-dotados tendem a fugir das massas e a ser muito tímidos. Há três anos, Magnus não falava com ninguém que não fosse de seu círculo mais íntimo. Agora, depois de percorrer milhares de quilômetros, participar de centenas de jogos em todo mundo e atendendo, a contragosto, a uma multidão de repórteres, o precoce número um, compreendeu que atender a imprensa é parte de suas obrigações, ainda que o faça a conta-gotas.
Apesar de que as matérias façam pensar o contrário, a maioria dos enxadristas de elite são bastante sociáveis. Carlsen é uma das poucas exceções, embora já seja um ídolo nacional e foge o quanto pode da exposição aos seres humanos de fora de seu círculo. As partidas de futebol noturno, com outros enxadristas, podem ser a única maneira de ver-lhe fora de sua habitação, ou da sala de torneio. Vive em seu mundo, baseado muito na Internet: partidas do Real Madri, um de seus amores, torneios de pôquer, conversas com seus amigos e leituras de jornais através da rede.
Magnus Carlsen parece razoavelmente feliz, quiçá porque sabe que milhões de aficcionados apreciam a beleza e profundidade de suas partidas. Ainda que fale um inglês perfeito, seu idioma natural é o xadrez, e a ele devotou toda sua assombrosa inteligência, inteligência para qual está se lixando, como Anand.

30 março 2010

Gênios

Definições para gênio não faltam. Desde os gênios absolutos, daqueles que onde metem a mão, não importando a atividade, uma estrela brilha, impossível não citar Leonardo Da Vinci, aos mais comuns, daqueles que se destacam em apenas uma atividade. Uma delas, o esporte, um campo profícuo para eles, teve Pelé e Maradona (dos que vi jogar) no futebol, Comaneci na ginástica, Senna na fórmula um, Jordan no basquete, Ricardo no turfe (para os que não acham, dou o direito, mas, independente de julgamentos técnicos, só pelo número de vitórias já mereceria o título). Se a cavalos pudéssemos chamar assim (a palavra craque abarca muitos cavalos, todo ano temos quatro ou cinco craques que surgem), só um me vem a memória: Itajara. O único que massacrou sempre seus adversários, o único que era manchete em todos os periódicos e na TV. Itajara inscrito, era sinônimo de propaganda gratuita para o turfe. Nenhum outro cavalo em corrida, Puro Sangue Inglês, teve tanto poder embutido no nome, pelo menos no período que este escriba se entende por gente.
Todo este intróito para dizer que no xadrez devam existir um par de dezenas de jogadores geniais em toda sua história, mas que na minha lista cheia de exigências, até agora cabiam três nomes:
a) o cubano José Raul Capablanca, aquele que sem o pai perceber, aprendeu a jogar apenas o observando frente aos rivais. O pai ficou atônito quando um belo dia, o menino, com apenas quatro anos, corrigiu-lhe um lance ilegal que havia feito. Alguns meses depois, as partidas entre pai e filho já não tinham graça...
b) Mikhail Tahl, o mago de Riga, o mais poderoso jogador de ataque que o xadrez conheceu. Tahl, as vezes, não jogava os melhores lances, mas sim os que complicavam mais a partida . Tinha um cálculo e uma intuição fantásticas e criava confusões no tabuleiro que eram impossíveis de ser destrinchadas pela maioria dos seus adversários. Tahl foi uma lenda, nunca esqueço, que na única Olimpíada que tive o prazer de participar pela equipe brasileira, em Novi Sad, antiga Iugoslávia, instantes antes de começar uma rodada, foi anunciada a presença do mesmo em visita ao Torneio, já bastante doente e à beira da morte. A nata do xadrez mundial parou o que estava fazendo e todo mundo se levantou para bater palmas. Foi de arrepiar...
c) Robert James Fischer, o mais carismático e para muitos, o melhor jogador de todos os tempos. O que dizer de um jogador que para chegar a final do Campeonato Mundial de 1972, contra Boris Spassky, derrotou Mark Taimanov em um match, melhor de dez partidas, por seis a zero. Novo seis a zero contra Bent Larsen, um dos cinco melhores jogadores do mundo à época. Para finalizar 7,5 x 2,5 em Tigran Petrosian, campeão mundial de 1966. Além de Fischer varrer os adversários do tabuleiro, havia toda uma conotação política na sua ascensão ao título mundial. A guerra fria no auge e surge um americano para tirar a hegemonia dos soviéticos naquilo que eles faziam de melhor.
A essa lista, acrescento um quarto integrante, Magnus Carlsen, dinamarquês. As próximas duas postagens serão sobre ele. Até...

10 setembro 2009

O Jogo Imortal - Final

Mesmo assim, para o grande desprazer de minha esposa, acabei sendo capturado. É um jogo intoxicante e, embora muitas vezes dificílimo, jamais cansativo. A sofisticada interação entre o simples e o complexo é hipnótica: as peças e as jogadas são suficientemente elementares para que qualquer criança de cinco anos as possa assimilar, mas as combinações no tabuleiro são tão vastas que a totalidade de jogadas possíveis jamais pode ser realizada, ou mesmo conhecida por uma só pessoa. Outros jogos de salão propiciam suficiente diversão, entretenimento, desafio, distração. Mas o xadrez se apodera. Ele não apenas ocupa a mente, mas assenhora-se da mesma de um modo que nos faz pensarem uma conexão primitiva codificada no cérebro humano. De uma forma muito mais poderosa, no entanto, senti-me transportado pela rica história do xadrez. Parecia que ele estava presente em todos os lugares ou épocas, e que era utilizado em qualquer tipo de atividade. Os reis bajulavam e ameaçavam através dele; os filósofos utilizavam-no para contar histórias; os poetas faziam analogias com ele; os moralistas usavam-no em suas pregações. Suas origens estão envoltas em algumas das mais antigas discussões sobre destino versus livre-arbítrio. O xadrez provocou e aplacou brigas; facilitou e sabotou romances; fertilizou a literatura desde Dante até Nabokov. Um livro do século XIII que o tomava como guia para a moralidade social pode ter sido o segundo texto mais popular da Idade Média, depois da Bíblia. No século XX, o jogo possibilitou aos cientistas da computação criarem máquinas inteligentes. O xadrez também tem sido usado, nos tempos modernos, para estudar a memória, a linguagem, a matemática e a lógica, e recentemente emergiu como uma poderosa ferramenta de aprendizado nas escolas do ensino fundamental e médio.
Quanto mais eu aprendia sobre essa relevância cultural particularmente sólida, século após século, mais me parecia que o poder de resistência do xadrez não era nenhum acidente histórico. Assim como na Bíblia e em Shakespeare, havia nele algo particular que o tornava sempre acessível às sucessivas gerações. Servia a uma função genuína – talvez não de ordem vital, mas frequentemente muito mais do que simplesmente útil. Muitas vezes me vi imaginando como teriam evoluído acontecimentos ou vidas particulares na ausência do xadrez – situação esta, como vim a saber, que muitos que odeiam o xadrez ardentemente
desejaram. Talvez a mais vívida medida da potência do xadrez seja, de fato, a determinação de seus inimigos ortodoxos em eliminá-lo – desde uma lei do ano 655, do califa Ali Ben Abu-Talib (genro do profeta Maomé), até recentes decretos do aiatolá Ruhollah Khomeini, em 1981, do Talibã em 1996 e do clero iraquiano posterior a Saddam Hussein. Entre esses períodos, o xadrez foi proibido:

em 780, pelo califa abássida Al-Mahdi ibn al-Mansur;
em 1005, por Al-Hakim Bi-Amr Allah, do Egito;
em 1061, pelo cardeal Damiani de Ostia;
em 1093, pela Igreja Ortodoxa do Leste;
em 1128, por São Bernardo;
em 1195, pelo rabi Maimônides;
em 1197, pelo abade de Persigny;
em 1208, pelo bispo de Paris;
em 1240, pelos líderes religiosos de Worcester, Inglaterra;
em 1254, pelo rei Luís IX da França (são Luís);
em 1291, pelo arcebispo de Canterbury;
em 1310, pelo Conselho de Trier (Alemanha);
em 1322, pelo rabi Kalonymos ben Kalonymos;
em 1375, por Carlos V da França;
em 1380, pelo fundador da Universidade de Oxford, William of Wickham;
em 1549, pelo proto-hierarca Silvestre, da Rússia;
e em 1649, pelo czar Alexei.

Mas, assim como o Talmude, a teoria da seleção natural e qualquer paradigma do pensamento organizado que os humanos acharam irresistivelmente estimulante, o xadrez se recusou a partir. Por que razão 64 casas e um punhado de estatuetas comuns de guerra terão sido tão difíceis de apagar da imaginação humana? O que havia com o xadrez que simultaneamente atraía a devoção e a repulsa, desencadeando tantas idéias e observações poderosas, por tantos séculos?
Foi isso o que resolvi compreender, através de uma minuciosa pesquisa da história do xadrez e de um olhar novo sobre o jogo.

09 setembro 2009

O Jogo Imortal II

O XADREZ SOBREVIVEU. O jogo tivera um importante destaque na corte do antecessor do califa Al-Amin, e iria consumir vorazmente a atenção de seu sucessor, e a do califa que o sucedeu, e a do que sucedeu a este. Muitos séculos antes de contaminar a Europa feudal cristã, o xadrez já era parte indelével da paisagem próxima ao Tigre e ao Eufrates. Esse simples jogo, composto de um universo inteiro de complexidades e de caracteres, exigia dos camponeses, soldados, filósofos e soberanos uma interminável quantidade de tempo e de energia. Em troca, oferecia intuições únicas sobre os esforços dos seres humanos.
E assim, contra todas as probabilidades, ele perdurou. Os jogos, via de regra, não perduram. Assim como chegam, eles se vão. No século VIII, os irlandeses gostavam muito de um jogo de tabuleiro chamado fidchell. Muito antes disso, no terceiro milênio a.C., um jogo semelhante ao gamão, chamado senet, era muito popular entre os egípcios. Os romanos eram atraídos pelo duodecim scripta, jogado com três dados de osso e pilhas de discos. Os vikings, no século X, eram obcecados por um jogo chamado hnefatafl , no qual um rei protagonista tentava escapar de uma fileira de inimigos para alguma das extremidades do tabuleiro. Os gregos antigos tinham o petteia e o kubeia. Esses e outras centenas de jogos, outrora populares, há muito desapareceram. Prendiam a imaginação do público em sua época e lugar, e depois, por algum motivo, perderam força. As gerações passaram, carregando seus costumes consigo, ou culturas dominadoras impuseram novas ideias e passatempos, ou o povo simplesmente se cansou, desejando algo novo. Muitos jogos caíram num esquecimento tão absoluto que nem sequer puderam deixar alguma marca coerente no registro histórico. Por mais que tentassem, historiadores decididos não conseguiram ainda descobrir as regras básicas de um grande cemitério de jogos do passado.
Contrastemos tudo isso com o xadrez, jogo que nem os editos religiosos, nem o oceano, ou a guerra, ou a barreira dos idiomas pôde deter. Nem mesmo a impiedosa acumulação do tempo, que no final remove e desmancha a maioria das coisas, pôde sequer dar um leve puxão no feroz ímpeto do xadrez. Em 1786, Benjamin Franklin escreveu: “Durante inúmeros períodos ele foi a diversão de todas as nações civilizadas da Ásia, dos persas, dos indianos e dos chineses. A Europa o conhece há mais de mil anos; os espanhóis o divulgaram por suas regiões da América, e ultimamente ele começa a fazer sua aparição aqui nesta nação.”
O jogo chegaria por fim a todas as cidades do mundo, em mais de 1.500 anos de história contínua – um fio comum de cadeias de peões, forquilhas de cavalos e humilhantes xeques-mates que percorreriam as vidas de Karl Marx, do papa Leão XIII, de Arnold Schwarzenegger, rei Eduardo I, George Bernard Shaw, Abraham Lincoln, Ivã o Terrível, Voltaire, rei Montezuma, Rabbi Ibn Ezra, Guilherme o Conquistador, Jorge Luis Borges, Willie Nelson, Napoleão, Samuel Beckett, Woody Allen e Norman Schwarzkopf. Do Palácio do Portão Dourado, em Bagdá, até o Castelo de Windsor, em Londres, e às mesas de hoje à margem do lago na North Avenue Beach, em Chicago, o xadrez formaria um laço através da história de forma surpreendente e estimulante.
Como pôde um jogo durar tanto, e agradar tão amplamente, ao longo de tão variadas circunstâncias de tempo, geografia, língua e cultura? A resistência não é, evidentemente, uma magnífica realização em si, mas sim um indício estimulante de que alguma coisa profunda estava se passando, uma conexão catalisadora entre esse “jogo” e o cérebro humano. Um outro sinal é que o xadrez não só era jogado, como também integrado nas vidas criativas e profissionais de artistas, lingüistas, psicólogos, economistas, matemáticos, políticos, teólogos, cientistas da computação e generais. Tornou-se uma metáfora popular e flexível das ideias abstratas e dos sistemas complexos, e um instrumento eficaz pelo qual os cientistas podiam melhor compreender a mente humana.
O notável alcance desse jogo começou a contaminar meu próprio cérebro depois da visita de um velho fantasma familiar, no outono de 2002. Minha mãe me entregara alguns recortes de jornais velhos e desbotados sobre Samuel Rosenthal, o seu bisavô – meu trisavô –, um pequenino judeu polonês que emigrara para a França em 1864, tornando-se ali um dos seus lendários mestres de xadrez. Segundo o folclore familiar, Rosenthal causara muito boa impressão e/ou, de algum modo, merecera a gratidão de um dos Napoleões, pelo que foi recompensado com um magnífico relógio incrustado de pedras preciosas. Ao que parece, ninguém na família realmente viu esse relógio, mas todos ouviram falar dele. Quatro gerações depois, essa história, contada a um menino do subúrbio de Ohio, pareceu exótica e nebulosa o suficiente para que sua mente entrasse em plena atividade. Durante anos eu pedira a minha mãe para me contar mais sobre o grande S. Rosenthal e seu relógio perdido.
Enquanto vasculhava os registros das façanhas do pai do pai da mãe de minha mãe, imaginando quais espetaculares (e ainda ocultas) informações se teriam filtrado através das gerações, também fiquei mais uma vez em contato com o próprio jogo, que eu não jogava desde os tempos de ginásio (e mesmo então, apenas o fiz umas poucas vezes). Hesitante em algumas dezenas de partidas com amigos em casa e com desconhecidos pela internet, descobri que estava tão ambivalente em relação ao xadrez quanto 20 anos atrás – encantado com sua elegância e intrigado por sua profundidade, embora também desencorajado diante das enormes dificuldades envolvidas até mesmo em jogos moderadamente sérios. Ser promovido de "patzer" (é uma gíria que significa jogador fraco e amadorístico, ou seja, o nosso popular pato) a uma condição de mera competência requer centenas de horas intermináveis, não apenas de prática como também de estudo de volumes inteiros sobre teoria introdutória, problemas de abertura e de estratégia. Anos de obsessiva dedicação ao jogo poderiam propiciar-me finalmente o ingresso em torneios razoavelmente respeitados, onde sem dúvida eu seria eliminado em pouco tempo por algum menino de dez anos, cheio de autoconfiança e com a língua ferina. O xadrez é como um pico longínquo e inatingível, que fica cada vez mais íngreme a cada passo que damos.
Fui repelido também, francamente, pela proibitiva atmosfera das regras implacáveis, do jargão só para iniciados e do tom geral agressivo e desagradável, presentes até mesmo nos jogos mais casuais. Lembro-me de Bobby Fischer ao proclamar: “O xadrez é uma guerra sobre um tabuleiro; o objetivo é esmagar a mente do adversário.” Fischer não estava sozinho ao assumir vigorosamente a brutalidade do xadrez. O jogo muitas vezes significa tanto demolir a vontade e a auto-estima do adversário quanto implementar uma estratégia superior. Não há derramamento de sangue (normalmente), mas a ferida pode ser real. O laço histórico entre um desempenho enxadrístico de alto nível e uma instabilidade mental surge como mais um intrigante aspecto do jogo e de seu poder. “Aqui há nada menos que um silencioso duelo entre duas máquinas humanas, usando e abusando de todas as faculdades da mente”, escreve Alfred Kreymborg, mestre de xadrez, defendendo-se. “É uma atividade guerreira nas mais misteriosas selvas da personalidade humana.”

08 setembro 2009

O Jogo Imortal

Trago para meus poucos leitores enxadristas a introdução do livro escrito por David Shenk, O Jogo Imortal ( o que o xadrez nos revela sobre a guerra, a arte, a ciência e o cérebro humano ). Como é um texto um pouco longo para uma postagem, dividirei em três partes. Bom divertimento, lembrando que quem não é enxadrista também vai gostar.

"ENORMES PEDRAS, cabeças decepadas e potes com óleo em chamas
choviam sobre Bagdá, a capital do vasto império islâmico, enquanto os
seus esgotados defensores corriam para reforçar os portões, as trincheiras
e as maciças muralhas de pedra que circundavam os muitos palácios
de tijolo e madeira da cidade fortificada. Gigantescas catapultas – as
manjaniq – bombardeavam as estruturas distantes, enquanto catapultas
menores e mais precisas – as arradah – acertavam os indivíduos com
pedras um pouco maiores que laranjas. As flechas cruzavam o ar em
blocos compactos, e os cavaleiros de elite golpeavam os homens a pé
com suas espadas e lanças. “Os cavalos … pisoteiam as vísceras dos valentes
jovens”, lamentava-se o poeta Al-Khuraymi, “e os seus cascos lhes
partem os crânios.” Fora da principal muralha circular da cidade – de
30 metros de altura, 45 de largura e quase dez quilômetros de circunferência
–, os soldados avançavam com aríetes, enquanto outros pelotões
cortavam as linhas de fornecimento de alimentos e reforços. Em meio a
barcos naufragando e plataformas em chamas, os cadáveres flutuavam
à deriva pelo rio Tigre.
A impenetrável “Cidade da Paz” desmoronava. Nos 50 anos decorridos
desde sua fundação, em 762 d.C., a jovem Bagdá rivalizara com
Constantinopla e Roma quanto ao prestígio e à influência. Era um grande
e fértil eixo de arte, ciência e religião, e um fervilhante centro para as
rotas de comércio que chegavam até o longínquo interior da Ásia Central,
da África e da Europa. Mas, no final do verão de 813 d.C., depois de
quase dois anos de guerra civil (entre irmãos, para piorar), a iluminada
capital islâmica tornara-se uma ruína sangrenta, faminta e fumegante.
Diante da desordem, todo ser humano necessita desesperadamente
de ordem – alguma forma de administrar, se não o mundo material, pelo
menos a compreensão do mundo. Sob essa luz, talvez não seja realmente
uma surpresa que, enquanto estrondeavam sobre Bagdá as pedras, as
flechas e os cascos dos cavalos, o núcleo mais protegido da cidade abrigasse
uma outra espécie de batalha. Dentro do santuário interno da circular
cidade imperial, em toda segurança por trás de três espessos muros e de
muitos portões e guardas, sob a brilhante cúpula verde do Palácio do
Portão Dourado, Muhammad al-Amin, sexto califa do Império Abássida,
descendente espiritual (e distante parente consangüíneo) do profeta
Maomé, soberano de um dos mais vastos domínios da história do mundo,
jogava xadrez com Kauthar, seu eunuco favorito.
Um mensageiro de confiança irrompeu pelos aposentos reais trazendo
notícias urgentes e nada boas. Um relatório sobre novas e humilhantes
derrotas, dentro e fora da cidade, devia ser feito ao califa. Na
verdade, a sua própria segurança encontrava-se em risco.
Mas Al-Amin não quis ouvi-lo. Acenou para que o apavorado emissário
se fosse dali.
“Ó Comandante dos fiéis!”, implorou o mensageiro, segundo Jirjis
al-Makin, o historiador islâmico medieval. “O momento não é para
brincadeiras. Tenha a bondade de levantar-se para tratar de assuntos da
mais séria importância.”
De nada adiantou. O califa estava totalmente absorto no tabuleiro.
Um jogo de xadrez em andamento – como aprende rapidamente toda esposa
de jogador – é um cosmo em si mesmo, completamente isolado de
um choro de bebê, ou de um convite erótico, ou de uma guerra. Embora o
tabuleiro tenha apenas 32 peças e 64 casas, dentro daquele limitado espaço
o jogo tem profundidade e possibilidades quase infinitas. Alguém de fora,
observando distraído, poderia achar incompreensível essa intensidade.
Mas quem quer que já o tenha jogado algumas vezes compreende como
esse jogo pode ser tão absorvente. Muitas vezes, no meio de uma partida
interessante, é quase como se a realidade se virasse pelo avesso: os movimentos do jogo parecem ser a única coisa substancial, enquanto qualquer insinuação do mundo exterior soa como uma irritante irrelevância.
Quanto mais problemático estiver o mundo exterior, mais poderosa poderá ser essa dinâmica invertida. Talvez por isso o califa Al-Amin, sentindo que as suas horas já estavam contadas, preferisse embeber-se com os detalhes da batalha no tabuleiro de xadrez do que com os relatos do calamitoso sítio à sua cidade. No tabuleiro, ele podia ter a visão da ação total. No tabuleiro, podia compreender claramente os fatos passados e planejar cuidadosamente os futuros. No tabuleiro, ainda seria possível vencer. “Paciência, meu amigo”, respondeu calmamente o califa ao mensageiro, que embora estivesse apenas a alguns passos de distância, parecia estar em um mundo à parte. “Vejo que dentro de alguns lances vou colocar Kauthar em xeque-mate.” Pouco depois, Al-Amin e seus homens foram presos. O sexto califa abássida, vitorioso na sua última partida de xadrez, foi decapitado em seguida."

16 abril 2009

Porque abandonei o Xadrez e como ressuscitei Nimzowitsch

Um conto sobre xadrez especialmente para os poucos enxadristas que de vez em quando passam por aqui:






Estamos na posição final da partida que me fez abandonar o xadrez. As pretas acabam de jogar seu peão a três Torre do Rei e o condutor das brancas, Saemisch, abandonou o jogo. O mais cruel e curioso é que o autor do lance final tinha seu primeiro nome idêntico ao meu.
A partir do momento em que vi esta partida, um problema, mais de ordem filosófica do que enxadrística, se apoderou do meu cérebro: se entre dois grande mestres destacados, em apenas 25 lances, e com quase todas as peças em jogo, o condutor das brancas se encontrou em zugzwang (palavra alemã que significa literalmente "quem joga perde" ), decididamente algo estava errado nas leis que regem o jogo.
Essa dúvida foi se avolumando e se transformou em aflição generalizada no momento em que me vi frente a frente com um adversário em um Torneio Aberto realizado no Clube de Xadrez de São Paulo. Para realizar o primeiro lance, conduzindo as peças brancas, demorei nada menos do que 30 minutos e passo a relatar aqui todos os pensamentos tortuosos, dignos de um demente, que impediam que eu efetuasse a primeira jogada. Aquele maldito zugzwang não saía da minha cabeça:

“Sentei em frente ao tabuleiro e tentei me tranquilizar, mas era inútil. Sem que nenhuma peça tivesse se movido, eu já me considerava perdido, procurava uma saída mas aquilo era um verdadeiro beco sem saída. Meu destino parecia traçado de antemão.
Tinha fortemente arraigado o dogma de Philidor, segundo o qual os peões são a alma do xadrez. Podem parecer pequenos e insignificantes, inclusive fáceis de sacrificar, mas determinam inexoravelmente o desenvolvimento da partida com a estrutura que apresentam. Perder um peão ou situá-lo em uma casa errada poderia me acarretar uma derrota acachapante. O mais dramático do xadrez é que ele não permite com que se retroceda com os peões.
Meditando sobre isto, voltei a contemplar a posição e reparei que, se avançasse qualquer um dos meus brancos peões, me expunha a toda classe de perigos. Avançar um peão supõe, por um lado, aproximá-lo das forças inimigas e, por outro, debilitar casas próprias, deixar buracos atrás de si. Cheguei a conclusão que não poderia avançar nenhum peão, até que meu rival o fizesse. E aí caiu um dogma universal do xadrez. Quem goza da vantagem inicial é o bando preto e não as peças brancas, pois as brancas estão obrigadas a avançar algo e consequentemente debilitar-se. Aos poucos foi se apoderando de mim a ideia de que mesmo sem ter feito lance, já me encontrava em zugzwang. Céus, quem inventou este jogo se assegurou de que não ficassem casas livres atrás das peças. À sua frente os peões infantes , atrás o abismo.
Súbito, me veio a solução! Meus cavalos, sempre eles, podiam galopar depressa e saltar os obstáculos mais altos sem estropear a falange de peões brancos e tendo em conta que a segurança do meu rei é o objetivo primordial do jogo (outro dogma quebrado), julguei conveniente aproximar dele justamente o que lhe estava mais distante e finalmente fiz meu primeiro lance: C3BD e olhando sadicamente para meu oponente pensei “ pode baixar o rei que agora você está perdido”.
Minha euforia não chegou a durar um minuto, pois meu adversário retrucou singelamente C3BD também, e retribuindo o mesmo olhar que eu lhe havia lançado momentos antes, se deleitou muito mais ao perceber que a minha euforia havia se transformado em pavor.
A tensão não poderia perdurar por mais tempo. Tinha feito apenas um lance e o esgotamento era como se tivesse jogando uma partida que passasse de cem lances. Com raiva pensei: “ se esse imitador de lance alheio tá pensando que pode transferir todo peso da evolução enxadrística para cima de mim, está muito enganado”. Já refeito do golpe, respondi com o único lance que , segundo meus critérios, não perderia: C1C.
Desnecessário dizer que a partida terminou em empate por repetição de jogadas e com todas as peças na posição inicial.”

Tanto eu, como quem comigo jogava, fomos eliminados sumariamente do Torneio, por prática antidesportiva e por total desrespeito com os demais participantes e com o público presente. Onde já se viu, empatar na posição inicial, significa mais ou menos, fazendo uma analogia com as corridas de cavalos, que todos os jóqueis puxem seus conduzidos e nenhum chegue ao disco.
Hoje, passado mais de 15 anos do fato, temo que tudo não tenha passado de uma alucinação, pois toda vez que tentei mencionar o ocorrido com enxadristas que estiveram presentes ao Torneio, ninguém lembrava nem da partida, nem do nome ou fisionomia do meu adversário. Era como se a partida não houvesse acontecido. Ao resgatar a planilha da partida, percebi com espanto que o tempo se encarregara de esmaecer por completo o nome do condutor das peças negras. Porém, no meu íntimo sei, que naquele dia, Aron Correa teve o prazer de jogar com Aron Nimzowitsch.
Por fim digo, que se é verdade o que afirma Borges no seu famoso poema El Golem, de que “nas letras de rosa está a rosa e na palavra Nilo está todo o Nilo”, infiro que os lances C3BD e C1C encerram em sí, toda a história de um jogo chamado xadrez.

* O texto em vermelho tem trechos adaptados do conto Zugswang de Joan Sánchez
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