
Era uma vez um reino cavalar que vivia em harmonia desde quando o Rei Casco Perfeito e a Rainha Socorro Desferrada pararam de correr. A vida da tropa era apenas correr e competir e após a aposentadoria dos monarcas das pistas, as corridas, razão única da raça dos Purinus Sangus Englandius, estavam cada vez mais disputadas. Os regulamentos buscavam atingir o perfeito equilíbrio. Foi assim que se fizeram as chamadas. Ganhadores com ganhadores, perdedores com perdedores, fêmeas contra fêmeas, os mais novos disputando com os mais novos, os craques "versus" os craques, e os menos aquinhoados no poderio locomotor, tentando a vitória com animais de igual nível técnico. Aos que tinham algum problema, eu disse problema, era permitido que se usasse algum artifício que o corrigisse. Assim, para os que gostavam de abrir na curva, ou não conseguissem correr em linha reta, fez-se a roseta. Para os que se afogavam , uma simples imobilização da língua e o animal podia respirar plenamente como os outros, quando em ação. Antolhos, arminhos, algodão nos ouvidos, enfim acessórios que não melhoravam performance, mas que podiam ajudar aos cavalos a encontrar seu potencial. Todos eles eram permitidos.
Tudo ia bem, mas eis que o filho de Casco Perfeito e Socorro Desferrada, o Príncipe Desferrado É Assalto, completa dois anos e começa sua jornada nas pistas. Pelas leis da monarquia, os herdeiros do sangue real eram os únicos que podiam correr sem ferraduras, se assim o quisessem.
De fato, Desferrado É Assalto honrou o nome e depois de três vitórias seguidas, transformou-se em líder de geração.
Houve revolta naquele mundo equino, tanto que uma comissão de três cavalos pensadores, responsáveis pela elaboração dos páreos, pediu audiência ao rei. O mais destacado dentre eles, o cavalo Handicapeur, se encheu de coragem e falou de forma direta ao rei:
- Majestade, seu filho por correr sem ferraduras, vem levando vantagem sobre os adversários.
- Você tem razão, Handicapeur. Mas que culpa temos nós se somos sangue azul e nossa conformação física nos fez com cascos perfeitos que permitem ao nosso filho atuar desferrado em todas as provas. Concordo que é uma vantagem, mas é uma vantagem que a própria natureza nos deu. Se proíbo os outros de correrem desferrados é para o próprio bem deles, pois em assim o fazendo, deteriorariam seus cascos não tão nobres quanto os nossos, a ponto de causar lesões irreversíveis.
- Tudo bem, Majestade. Concordo com sua assertiva, mas se os cascos do Príncipe Desferradinho são naturalmente tão superiores, gostaria que ele atuasse assim, no próximo Clássico do nosso calendário, programado para uma milha na areia.
- Não me faças rir, caro Handicapeur. Todo mundo sabe que o Desferradinho e todos os outros de nossa estirpe, gostam de atuar descalços apenas quando a grama está propícia. A grama leve é nossa predileção, mas uma grama um pouco macia também nos dá prazer. Não gostamos de grama pesada, por isso ferramos quando necessário. Quanto a areia, nem sei como mantemos corridas nesta pista, decididamente falta pompa e circunstância. Onde está o glamour? Se permito provas em tal pista é porque sou um rei justo, mas é preciso que se diga que neste Clássico, o único que irá com agarradeiras será meu filho.
- Queria que Vossa Alteza entendesse, que desse jeito quem se ferra somos nós. Se corrida de cavalos fosse um prova de armas diria que seu filho Agarradinho É Barbada.. perdão excelência, que seu filho Desferradinho É Assalto está com a metralhadora na mão, ou melhor nos pés, enquanto seu súditos competem com tacape e machadinha.
- São coisas da monarquia, Handicapeur, coisas da monarquia...
Quis o destino que neste clássico na milha estreasse Pegasus, filho de Avião na Voa Condor. Foi o primeiro revés de Desferrado É Assalto, mesmo de agarradeiras chegou a vários corpos de seu oponente. O Rei incontinenti, obrigou a Pegasus a participar de um desafio na pista de grama leve, contra seu estimado filho. Aí sim veremos quem é o melhor, dizia ele.
O duelo não aconteceu, ou melhor aconteceu mas na partida já estava decidido. Enquanto um pegava muito bem a grama leve, o outro pegou muito melhor, na verdade nem tocava os pés na mesma, pois tinha raiva do chão, parecia flutuar, de tanto que corria.
Depois deste duelo, a população equina, desconfiada, se rebelou e depôs rei, rainha e príncipe. Um dos revoltosos e encarregado de levar a Família Real para interrogatório, o cavalo Domingus Fratius, gritava:
- Eles nunca foram sangue azul, o que eles são é gasolina azul.
Mas chamando o príncipe ao pé do ouvido, disse:
- Não liga, não. Existe uma
Cidade em que na grama do seu
Jardim não pode competir cavalo com asa, e onde você voltará a ser o que sempre foi, o líder. Se tudo der certo, eu também farei a minha fama neste local e serei conhecido como o Rei dos Desferrados, quem sabe até Papa do Turfe.