Por Laércio Sábato
Sempre gostei das tiradas inteligentes. Aquelas que só os sujeitos “acima da média”são capazes de bolar e que alguns “razoavelmente espertos” são capazes de entender. Nunca esqueço da forma como o Jorge Bouquet, colega do curso médio e depois cineasta, livrou-se no exame oral da curiosa pergunta da Myrian, exigente professora de Biologia, que pretendia medir os conhecimentos do aluno sobre a formação das células:
- Senhor Jorge, qual a semelhança entre o elefante e a palmeira?
Meu amigo acusou o golpe e respirou fundo. Depois, em meio ao clima de suspense que se formou, manteve o ar de seriedade, e disparou, sem se fazer de rogado:
- É que nenhum dos dois serve para fazer doce de abóbora!
Não foi reprovado. Nem advertido. A examinadora acabou aceitando seus argumentos de que a questão, como foi formulada, admitia muitas respostas. Até aquele disparate.
Doutra feita, um funcionário de um grande banco viu-se em apuros para explicar para superiores e colegas porque dissera, na fila do elevador, a contundente frase: o ascensorista aqui na empresa é mais eficaz que o presidente. Levou um tempão para convencer o pessoal, com a história que o ascensorista cumpria com precisão 100% das atribuições previstas na sua descrição de cargo, enquanto o presidente ficaria contente se correspondesse a 80% das expectativas dos acionistas. Os comentários só pararam quando o próprio presidente chamou o funcionário tagarela para cumprimentá-lo pela correta constatação.
Todo esse intróito para explicar o título desta postagem. Feito pra criar impacto. Que poderia se resumir na singela pergunta: Quem entende mais de marketing: os Diretores do Jockey ou o modesto feirante?
O assunto me ocorreu quando fazia a feira, no domingo. Como era dia de corridas, deixei para rabiscar esta encheção-de-linguiça durante a semana.
No caminho da feira faço mentalmente uma pré-avaliação de preços, do tipo “quanto estou disposto a pagar”. Como o turfista, quando tenta prever as cotações de cada animal, para decidir se interessa apostar. No último domingo, sabia que o tomate, por exemplo, estava com o preço nas alturas (informação de cocheira). Tinha até preparado uma gozação (me dá cem gramas aí) para cutucar o pessoal da barraca do japonês. Não deu outra: o precioso legume oscilava entre quatro e cinco reais, coisa para assustar o bolso mais generoso. Achei que ninguém ia levar. Nem os italianos (ir à feira e não comprar tomates é pior que ir a Roma e não ver o Papa). Mas os comerciantes acharam um jeito de não assustar a freguesia. Passaram a vender em “porções” (bacias), com peso um pouco menor e preço mais acessível. Para os que resistiam, vinha o convite: levar um produto ligeiramente inferior, ali ao lado.
O mesmo expediente funcionava para outros gêneros: a mandioca, que podia ser encontrada in natura, descascada e até cozida; a melancia, oferecida inteira, em metades ou em repartes; e por aí afora. O importante é que o vendedor sempre procurava eliminar os óbices de venda. O preço (no tomate), o incômodo de processar (na mandioca), o tamanho (na melancia).
Na tarde do mesmo domingo o Casella pegou mais uma vez a peteca, digo microfone, com a difícil incumbência de proclamar atrativos em um produto mal desenhado e mal embalado. Que começava com três páreos de apenas cinco números, dois com seis, e um com sete (isso porque a raia original foi mantida, caso contrário poderia ser menos), em nove programados. Qualquer crítica que se faça será rebatida com a resposta da carência de animais, de terem sido essas as inscrições apuradas na formação dos programas.
Faz pelo menos 15 anos que sugiro à toa acabar com o tal “projeto de inscrições”. Formar os programas com base no recenseamento permanente dos animais aptos. Às segundas-feiras os treinadores informariam seu lote (muito fácil hoje, com a Internet). Toda terça sairia uma programação que maximizasse a planta existente. Lembro aqui que hipódromos menores (sem manias de grandeza injustificáveis) acabaram fazendo isso para sobreviver.
Outro ponto difícil de entender é o da “inflexibilidade do cardápio”. Qualquer que seja a composição do programa formado, entram os concursos e as apostas rotineiras. Quem disse que páreo de sete ou menos animais tem que ser trifeta? E que de oito para cima tem que ser quadrifeta? Há páreos em que o grau de dificuldade independe do número de animais.Uma quadrifeta em um páreo de sete não pode ser mais complexa que uma trifeta em um páreo de oito ou mais? E os concursos? Não era previsto antigamente que teriam que ser de “X” pontos. Porque não um bolo de sete, ou de nove, dependendo do programa? E os preços das apostas unitárias (valor por inversão) não poderiam variar também, dependendo dos páreos formados neste ou naquele programa?
Nisso também os hipódromos menores agem melhor, oferecendo o remate. O leiloeiro com liberdade de apregoar duplas ou exatas, quando aparece um favorito proibitivo
Voltemos à feira-livre. O feirante, como dono do negócio, oferecia, horas antes, seus produtos como melhor entendesse. Procurando identificar o desejo (necessidade) do consumidor e oferecer, de forma lucrativa, o produto para satisfazê-lo (definição mais elementar do marketing, ensinado nas escolas). Sem sequer contar com ajuda da tecnologia.
O Jockey, à tarde, oferecia um produto por natureza prescindível (apostas), pouco atraente para o mais animado dos jogadores. Congelado na sua composição desde a formação dos programas, dias antes. E “embalado” de forma estandardizada (vencedor, placê, dupla-exata, trifeta, quadrifeta, concursos rotineiros). De nada adianta dispor de canais de comunicação e venda com tecnologia avançada (mas também cara). Dá no que deu neste domingo: 400 mil de movimento em CJ, cuja retirada provavelmente não cobre os insumos (só de bolsas de prêmios foram mais de 90 mil, sem prova clássica).
O locutor e comentaristas (mesmo encarados como promotores de venda) não podem fazer milagre. Fica difícil vender o produto que a empresa fabricou.
O feirante pinta e borda na sua barraca. É o dono.
Os donos do Jockey são os associados. Que elegeram uma Diretoria para representá-los. Alguém tem que chamar para si a incumbência de mexer no produto que é colocado à venda.
Ou admitir que o feirante é barbada na competição de marketing com os Diretores do Jockey
Finalizando, se alguém quiser questionar meu primeiro parágrafo argumentando que quero me arvorar a ser o que não sou (inteligente, por exemplo) devo lembrar a velha piada do sujeito que vai trocar um pneu furado na porta do hospício e não encontrando os parafusos que havia retirado às pressas vê-se em apuros e é ajudado por um louco que lhe recomenda tirar provisóriamente um de cada uma das outras rodas para resolver o problema. Após fazê-lo, no entanto, vira-se para para o colaborador, sentado no muro do manicômio, indagando: espera aí, você não é louco? E ouve como resposta: louco eu sou; mas não sou burro!