Já que o Laércio lembrou do Gualicho, tem um texto escrito por Michel Laurence, publicado no www.ig.com.br, que eu havia guardado para postar em uma ocasião especial. Acho que é o momento. As fotos peguei emprestado do Rita Turfe .
Houve um tempo em que o Jóquei Club era a segunda atração do brasileiro nos fins de semana.
Primeiro o futebol, depois o Jóquei.
O basquete vinha logo a seguir, com Algodão o grande astro do Flamengo, surgiu o futebol de salão ali pela década de 50, a natação com Fiolo, o judô de brasileiros com nome de japoneses e o vôlei que só se firmou quando o Luciano do Valle meteu a mão.
Mas atração mesmo era o Maracanã lotadasso e o Jóquei que alguns chamavam de Prado com gente saindo pelo ladrão.
Não tinha jogatina, os cassinos foram fechados e não tinham voltado. Então para fazer uma fézinha só mesmo no Jóquei e no difamado “Jogo do Bicho”.
Quando era jovem eu ouvia os mais velhos falarem em Mossoró, o primeiro cavalo brasileiro a vencer o Grande Prêmio Brasil em 1933. Tem até uma estátua enorme do cavalo tordilho, no Jóquei Clube Brasileiro, no Rio de Janeiro.
Mas de quem eu me lembro mesmo é da égua Tirolesa, uma argentina de nascimento, radicada no Brasil.
Tirolesa ocupava as manchetes das páginas de turfe (naqueles tempos jornal que se prezava tinha que ter página de turfe, que resistiram até a década de 70). A égua, uma campeã, havia perdido para Carrasco, um cavalo argentino, em 49 e todos esperavam que ela fosse a forra em 50.
E realmente aconteceu, Tirolesa foi a primeira égua a vencer o Grande Prêmio Brasil e a ganhar dos machos.
Foi uma festa.
Mas não faltou o que era quase normal naquela época, os que a classificaram de “égua-macho”. Assim como existia uma música com a letra: “Paraíba masculina, mulher macho, sim, sinhô”, que existe até hoje.
Mas a supremacia da criação de puros-sangue argentinos sobre a brasileira era algo humilhante.
Todo anos eles vinham aqui e faziam a limpa. Ganhavam o Grande Prêmio São Paulo e depois o Grande Prêmio Brasil, no Rio.
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| Gualicho vence Brasil de 53 |
E foi assim em 1951 com Pontet Canet e em 52, com Gualicho, que repetiu no ano seguinte.
Nesse mesmo ano de 1953 surgiu Garrincha no Botafogo, que foi trazido lá de Pau Grande pelo médio Arati, que defendia o Botafogo e tinha passado pela terra de Garrincha e ali o tinha visto jogar.
Garrincha chegou ao Botafogo aos 23 anos, completamente desconhecido.
Eu o vi pela primeira vez num jogo contra o São Cristovão, no campo do Botafogo, em General Severiano.
De vez em quanto meu pai fazia isso, me levava para ver um jogo de bola. Acho que para despertar em mim o gosto pela bola. Sinceramente ele não precisava ter feito isso (apesar que era muito legal estar com ele), que o amor pela bola já crescia dentro de mim nas peladas de fim de tarde em um terreno baldio na rua Almirante Tamandaré, no bairro do Flamengo.
Bem, mas voltando ao jogo, pénalti a favor do Botafogo. Você sabe, brasileiro nunca gostou de bater pénalti. Só agora recentemente é que bater penal virou diversão.
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| Na foto da vitória, com Olavo Rosa no dorso |
Só sei que ficou aquele empurra-empurra, neguinho fingindo estar passando mal, essas coisas. Garrincha botou a bola na marca do pénalti, tomou distância e PIMBA!!!!! goleiro para um lado, bola para o outro.
Se não me falha a memória ele fez mais dois gols.
Claro, virou a sensação do jogo. Só que naquele tempo não era como hoje em dia. Ninguém sabia direito a escalação dos times. E aí foi um tal de perguntar:
- Quem é o cara?
- Quem é o cara das pernas tortas?
- De onde surgiu esse cara? De outro mundo?
E aí o técnico Zezé Moreira ia esclarecendo:
- Olha, ele chegou outro dia! O Arati quem trouxe, lá de Pau Grande.
- Tá bom, mas como ele se chama?
- Garrincha – respondeu Zezé.
No dia seguinte todos os jornais enalteciam uma tal de “Gualicho”!
- É, igualzinho ao cavalo – garantiu o repórter a seu editor.
A força das corridas de cavalos era tanta que Garrincha ficou um bom tempo para se livrar do “apelido” de Gualicho.