06 outubro 2010

A Eugênia

Lembranças boas tenho da Eugênia. A conheci em meados da década de oitenta em uma das minhas intermináveis aulas de xadrez. O curso era para iniciantes, mas o talento dela era enorme e logo tive que tirá-la daquela turma de principiantes e colocá-la em uma outra, que já tinha noção do jogo. Nunca vi nada igual, não sabia mover as peças e seis meses depois, era uma das 10 melhores jogadoras do Brasil. As aulas tiveram fim, a amizade não.
O que me deixava fascinado era o fato de sua inteligência  estar no lugar certo, pois a Eugênia possuía uma imensa sede de cultura, na minha memoria vem Rodin no Masp, Eisenstein na Cinemateca e de Bailei na Curva no Teatro do IPE em Porto Alegre. Falando assim, dá a falsa impressão de que a Eugênia fosse mais do que uma amiga, mas todas essas atividades culturais relatadas, tinham sempre a  presença de um grupinho de jovens jogadores de xadrez. Era assim que nos divertíamos, sempre em grupo.
Um dia me enchi de coragem e perguntei para ela:
- Você já foi ao Jockey?
- "Cavalinhos correndo"... Não, nunca.
- Quer ir amanhã, é divertimento certo.
- Pode ser, a que horas?
Pensando em prolongar o prazer, disse:
- Tem corrida a tarde toda, quem sabe a gente não almoça por lá.
- Tudo bem, almoçamos, só não sei se quero ficar tanto tempo vendo "cavalinhos correr".
- Vamos embora quando você começar a pensar que está ficando chato, combinado?
- OK.
Transbordando de contentamento, afinal, corridas e Eugênia sozinha, só eu e ela, era uma combinação dos sonhos. E os sonhos  não foram poucos. A Eugênia de joqueta,  a Eugênia de atendente, a Eugênia de treinadora. Contando dessa maneira, até parece que eu estava completamente apaixonado pela Eugénia  (era assim que ela pronunciava seu nome, aquela  portuguesinha que nascera no Alentejo).
Passado o almoço, tentei explicar o turbilhão de informações que costuma assustar todo o novato que vai ao Jockey pela primeira vez. Pistas, partidor,cerca,disco de chegada. Depois a parte das apostas: vencedor, placê e parei por aí, porque ela começou a ficar nervosa. Para a revista não deu bola, mas no meio daquela avalanche de informações me fez uma única pergunta:
- O que são estes números luminosos que não param de se mexer, na parte interna da pista?
- A pedra, Eugênia. Mostra o volume de jogo em cada cavalo.
Me crivou de perguntas sobre o painel e seus processos e voltou a silenciar.
Assim passaram-se seis provas, eu jogando em todas elas, ela surpreendentemente quieta, mas atenta e fazendo anotações em um programa que havia me pedido para servir de rascunho.
Nesse tempo todo, insistia para que apostasse em algum  cavalo que quisesse, o que só fazia com que balançasse a cabeça negativamente. Instantes antes da largada da sétima prova veio a surpresa. Tirou um maço de dinheiro da bolsa, creio eu que o valor aproximado de um salário mínimo nos dias de hoje, e estendendo as notas para mim, disse resoluta:
- Joga no dois!
Olhei a revista e disse:
- Buena Luna? Pouca chance... Deixa para apostar no próximo páreo.
Impaciente, falou mais alto:
- Joga no dois, senão eu vou embora.
-Tá bom, vou ver se dá tempo...Espera aí que eu já volto.
Tempo deu e a Buena Luna ganhou em violenta atropelada. Bendita Buena Luna que me deu a primeira oportunidade de abraçar a Eugênia e ela achando que o abraço era apenas pela euforia da vitória...
Exultando, afirmei:
- Sorte de principiante. É muito comum quem vem pela primeira vez, sair daqui com os bolsos forrados.
- Sorte, nada. Fiz um estudo da pedra nos seis primeiros páreos e notei que  em quatro deles, números que tiveram uma grande injeção de dinheiro nos minutos finais, foram números de cavalos que ganharam as provas. Então, joguei com a estatística do meu lado. O dois pagava 17 por 1 e num piscar de olhos, passou a pagar 8 por 1, aí pensei, é esse que vai ganhar... Ganhou.
Ah, Eugênia, que maravilha, o talento do xadrez, todo posto em cima das apostas em "cavalinhos de corrida". Eugênia que de quebra me ensinou por A mais B que a pedra fala. Não tenho palavras para dizer da admiração que sentia por esta menina. Ela com seus 16 anos recém completados. Dizendo desta maneira, até poderia passar a enganosa sensação de que ela era minha doce Lola, Lolita.

* Qualquer semelhança com a realidade, pode ser ou não coincidência.

3 comentários:

  1. Tem o telefone da Eugénia, aron?

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  2. A Eugénia está onde?Está casada com quem?Mora no Brasil?Essas perguntas são feitas sòmente por curiosidade sem interesse outro qualquer,diga-se de passagem.XAVANTÃO

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  3. Xavantão, recebi muitos emails perguntando sobre a Eugênia, mas infelizmente, ela é apenas uma personagem da minha cabeça. Gosto muito de misturar ficção e realidade, e ela,a Eugênia, era muito perfeita para ser de carne e osso.

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